Dizia ele que a nossa vocação é “estarmos em viagem entre os seres humanos, sempre os peregrinos do possível” - uma deslocação sem chegada, que pode ser entendida como forma de se estabelecerem diálogos globais sobre as culturas.
Na sua condição de judeu em fuga numa Europa em colapso com a ascensão nazi, tornaram-se presentes na sua obra as questões do tempo e do espaço, que cada vez mais se nos apresentam relativos. Este sentimento a emergir do centro de uma crescente mobilidade, levanta agora outras interessantes possibilidades à identidade do ser humano, que se sujeita ao desaparecimento rápido de referências, exposto a uma situação de perda constante, sobre a qual a leitura de George Steiner nos pode dar pistas úteis.
O seu pensamento remete-nos para um estado que se pode denominar por "pensamento situado", no qual as ideias se refazem sobre um patamar existencial que se alarga acima das estruturações vulgarmente construídas pelos homens que não conseguem evitar o sofrimento. As pessoas que se angustiam face às cenas correntes do quotidiano, não aguentam a disseminação de sentidos que lhes apresenta demandas claras sobre a necessidade de se estabelecerem itinerâncias para as ideias… as quais se alteram no seu próprio movimento. A narrativa de George Steiner assenta numa contaminação de diálogos edificados num discurso sobre grandes horizontes, possuído por uma carga fortemente autobiográfica.
O fim das fronteiras rígidas entre história e filosofia obriga a reconhecer que todo o discurso histórico contém, em si mesmo, filosofia.
“Com que direito podemos tentar forçar um ser humano a assumir um nível mais elevado nas suas alegrias e nos seus gostos?” …se a sua relação com os outros se faz de uma forma precária e transitória; quando toda a temporalidade é pensada enquanto diversidade de tempos, estranha sequência de momentos, que escapa às tentativas de ordenação e organização da história, e nos fala de filosofia como uma falsa prova de civilização baseada em modelos ficcionais. Encanta-nos com a beleza das tarefas do aperfeiçoamento, no domínio sempre fugidio da sensibilidade, ao mesmo tempo que nos remete para a arte, toda ela assente em frágeis bases de decadência, insociabilidade, ou outros comportamentos cheios de ordenações patológicas. Avisa-nos sobre o desumano e sobre a descompensação irritante do meio académico que emerge de uma transparência sem futuro.
“A esperança e o medo são ficções supremas que extraem a sua força da sintaxe. São tão inseparáveis uma da outra como da gramática. A esperança contém um medo de não-consumação. O medo tem em si um grão de esperança, o pressentimento de poder ser superado”…mas a actualidade nega esta realidade, ou porque os medos se reorganizam seguindo novas conjugações sobre a falta de esperança, ou porque a esperança se apresenta cada vez mais disfarçada de ilusão, no repositório cansativo de discursos salvadores. Os medos redefinem as nossas sociedades; as esperanças saem enfraquecidas de uma luta desigual que se satisfaz no consumo.
São várias as conclusões de Steiner para com as diferenças pouco rígidas entre as grandes construções da humanidade… como se existisse um permanente conflito de verdades. O seu objectivo é o de viajar, avançando para além dos seus limites, numa actividade de crítica, desmistificação, desconsagração, que jamais estará concluída. Emigrar irrompe como acto de permanência, num exílio querido e estratégico. A criatividade precisa de uma contra-tendência que estimule novos compromissos.
A família, na figura tutelar do seu pai, exerce sobre Steiner uma profunda influência, que o leva a cultivar os valores da civilização do Ocidente. Uma escrita total, uma cultura de uma dimensão planetária… a tal viagem do espírito sobre um ser civilizado e riquíssimo em citações, em imitações de virtude e sabedoria. O cruzamento de referências, sobreposição de ideias; a criatividade olhada como o inevitável caminho de vida; a saída airosa para uma morte certa, onde o filósofo e o poeta têm a liberdade de viver depois do seu tempo. Todos estes temas são abordados de uma maneira insidiosa, extremamente insinuante, estimulando-nos a seguir caminhos iguais, e a acreditar que eles nos podem fornecer resoluções práticas para a individualização. Por vezes, a sua obra também nos remete para o espesso conceito de experiência do tempo: “temos de ser capazes de uma partilha recíproca do passado, de modo a viver conscientemente o presente mútuo”. Se essa experiência não fosse reflexiva, unidireccional, não teríamos um conhecimento mútuo, talvez tangencial, quer ao nível da comunicação interpessoal, quer ao nível colectivo da experiência social e política.
George Steiner impele-nos para um espaço de universalidade, que além de estabelecer novas relações de ordens entre ideias, as vai recriando progressivamente. O texto surge como algo que contém ainda características reminiscentes do sagrado, apesar de ter sido sujeito a sucessivas descargas do conteúdo divino. Uma secularização incompleta, que nos transporta para a ideia de “ontoteologia”, encontrada por Heidegger - a vida humana como tragédia, um estado incompleto, no pressuposto que ela é também uma fatalidade; uma impossibilidade de escape, que se assume numa frase sobre as vantagens do não nascimento; o crime de existir. O sagrado como tradição de uma procura de sentido é uma manifestação de vontade de recuperação das origens da vida.
Vivemos uma época que se vai estabelecendo entre o normal e o monstruoso, onde todos os sistemas classificatórios são realidades em ficções, onde só o irónico aprova distinções entre elas. “Em inúmeros sectores, a alegre proliferação de mediocridade e de provincianismo tem avançado insidiosamente pelas clareiras inspiradas, rasgadas nos anos 40 e 50. E se não houver mais nenhuma diáspora de qualidade?” Os movimentos de pessoas podem causar diminuições sérias à herança cultural quando, para se salvarem, tiverem de definir novos meios de comunicação instrumentais, de forma a garantirem a sobrevivência. Esta visão persiste na actualidade e adensa-se à medida que vamos sentindo a pretensão de autoridade com que a experiência histórica nos está a ser constantemente atirada pelos políticos do presente -nada existe para ser salvo.
As abordagens de Steiner sobre a música não são menos estimulantes. A relação estabelecida entre o silêncio e o som audível expressa-se num confronto entre o que se diz e o não-declarado. As semelhanças e as diferenças sobre muitas e interessantes matérias que se vão desenvolvendo no decorrer dos seus livros, tornam-no num autor que analisa o acto criador como um processo extremo de liberdade.
“Estamos a entrar numa civilização do aleatório, e da dúvida fundamental e total, sem aposta, é possível, então, que certas grandes categorias da arte não subsistam”. Por detrás da máscara do construtor atarefado e modesto, esconde-se um ser humano jogador, determinado a vencer a todo o custo. Sobressai o carácter lúdico da vida, despoletado na confusão dos acontecimentos históricos e nas manifestações de experiência pessoal. A ideia de catástrofe perpassa em toda a sua obra - a desilusão de uma totalidade perdida; o perigo de uma destruição sem sentido que ponha em causa o futuro da humanidade. Avisos, chamadas de atenção sobre a burocracia moderna, e todos os seus efeitos nefastos numa sociedade que se vai afastando, de forma gradual, dos seus sonhos. Os momentos finais são negativos e “em Bagdad, durante a Guerra do Golfo, os galos cantaram estridentemente toda a noite”. Estranha premonição.
George Steiner, A Gramática da Criação, Relógio d’Água, Lisboa, 2002;
George Steiner, As Lições dos Mestres, Gradiva, Lisboa, 2004;
George Steiner; Antoine Spire, Barbárie da Ignorância, Fim de Século, Lisboa, 2004;
George Steiner; Cécile Ladjali, Elogio da Transmissão, D. Quixote, Lisboa, 2005;
George Steiner, Heidegger, D.Quixote, Lisboa, 1990;
George Steiner, No Castelo do Barba Azul, Relógio d’Água, Lisboa, 1993;
George Steiner, Paixão Intacta, Relógio d’Água, Lisboa, 2003;
George Steiner; Ramin Jahanbegloo, Quatro Entrevistas, Fenda, Lisboa, 2000.
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