1.
Mais vantajoso do que medir a independência dos actos ou as informalidades dos vários interesses em confronto, é tentar perceber algumas das características que um espaço, salão de jogos de um café, possuidor de uma forte componente pública, foi capaz de assumir como local de exposições e, ao mesmo tempo, compreender alguns dos seus efeitos no contexto em que desenvolveu a sua actividade.
Sabe-se como é difícil gerir expectativas de conciliação relativamente às estratégias escolhidas. Em qualquer micro-comunidade, são poucos os que partilham perspectivas comuns, pelo que as relações conseguidas, numa área mínima de actuação artística, aproximam-se mais do domínio da amizade do que de amplas visões concordantes. O valor da aleatoriedade, como consequência das exposições realizadas, quando comparado com as tentativas de as explicar, revela instantes de uma experiência que nasce da ruptura entre o instituído e o que se pretende superar, fundindo-se num corte de abertura ao incalculável, através de situações necessárias e propiciadoras de aquisição de história.
O S. Olímpico apresenta uma razão de sobrevivência que se determina no aparente estado marginal das obras que por lá passaram, e que se entrelaça no contexto incerto onde elas sobrevivem. Movendo-se num terreno feito de incertezas e de ocasiões ganhas e perdidas, que determinaram muitos dos seus resultados mais visíveis enquanto colectivo, o S. Olímpico conseguiu aprofundar um modo firme e incondicionado do devir, solucionado através de um enigma, que abrange tanto a decisão de produzir arte, quanto a responsabilidade de a expor. Esta conjuntura facilitou a concretização de projectos que se estabeleceram para lá daquilo que se pode ter, à partida, como antecipado, suscitando as mais variadas formas de entendimento e especulação.
Por vezes torna-se preferível adoptarmos uma visão ingénua da vida, mesmo quando esta se manifesta quase sempre incompleta, do que nos encerrarmos na nossa própria conversa e capacidade de pensar sobre a observação do efeito-surpresa, quase sempre relativizado por quem nunca aceita outras perspectivas de ver, ou não admite outros princípios que não sejam absolutos. A estratégia, segundo Derrida, contem ela mesma uma aposta; "um certo modo de confiar no não-saber, no incalculável: calcula-se porque há um incalculável, calcula-se onde não se sabe, quando não se consegue predeterminar"; "a aposta estratégica consiste sempre no tomar uma decisão ou, mais paradoxalmente ainda, no render-se a uma decisão, no tomar de decisões que não se podem justificar completamente"; "há aposta estratégica porque o contexto não é totalmente determinável: existe, mas não é possível analisá-lo em termos exaustivos, é aberto porque advém, porque há porvir.” (1)
2.
Os actos criativos provêm do esforço humano - em parte uma afirmação, em parte uma identificação – sempre acompanhados de uma ideia efémera de liberdade; estado inalcançável, numa estabilidade geral de reconhecimento e segurança que todos procuram atingir.
Podíamos tentar investigar comprometimentos indirectos e detectar acordos, mais ou menos tácitos, com instituições ou pessoas; podíamos procurar equilíbrios que se revelam e se alteram a partir de humores, invejas ou oportunidades, mas os aspectos relacionados com este tipo de situação de concordância, dispersam a atenção sobre os reflexos imediatos e directos da qualidade das obras. A arte não pode ser avaliada a partir de realidades públicas, relações e influências, que só ficariam a descoberto nalguns dos seus actos menos significativos, tornando-a absolutamente incapaz de expressar a importância das manobras de concretização.
Das diversas ligações passíveis de se estabelecer ao abrigo do S. Olímpico, não há como ousar, realizar e testar a pertinência das estratégias que já se sabia existirem: as influências do enquadramento em que elas se inserem encontram-se em permanente mutação. Na condição de sobrevivência em que se movimenta o núcleo dos interesses e das mais variadas finalidades comerciais, depende de relações determinadas pelo poder e pelo dinheiro - que para a qualidade de vida em geral não são nada fáceis de evitar, e que prejudicam mais do que ajudam - é complicado. Cada processo de actuação gera uma certa coerência uniforme, mas também uma determinada desconformidade heterogénea. Existem zonas de aceitabilidade discordante e locais de renúncia concordante. Isolar a mais pequena conformidade num quadro de forças maioritárias e minoritárias, para que se possa sobreviver à margem da grande corrente, passa por se aprender a despistar os interesses e a contornar alguns dos estímulos mais evidentes de tudo o que já se sabe. Observadores avisados e capazes são aqueles que conseguem ter uma visão directa sobre a obra, isto é, quando abandonam em definitivo as explicações que se estruturam no enfatizar dos gestos mais previsíveis. Talvez o S. Olímpico tenha seguido alguns desses trajectos, eventualmente considerados acessórios por alguns, afastando-os de uma percepção atenta face às realizações conseguidas.
Um dia, a contra corrente acabará por ditar os cânones, como se determinasse uma recepção domesticada do estabelecido como maioritariamente correcto. A ideia de “não-pertença”, apontada por Derrida, sugere uma relação "com o outro, em que eu não digo nem sim nem não, digo que «quero ter a liberdade já não de me rebelar, de me revoltar ou de recusar, mas de não responder, assinando enunciados que não dizem nem sim nem não, um nem sim nem não que não é simplesmente uma dupla negação ou uma dialéctica»”; “«não sou da família» quer dizer, em geral: «Não me defino com base da minha pertença à família», à sociedade civil, ao Estado; não me defino através de formas elementares de parentesco. Mas significa também, de um modo mais figurado, que não faço parte de um grupo, que não me reconheço, nem numa comunidade linguística, nem numa comunidade nacional, nem num partido, num um grupo ou numa paróquia, quer se trate de uma escola filosófica, quer de uma escola literária” (2). Explorar um espaço de manobra com base neste conceito pode legitimar os atributos do S. Olímpico, e reafirmar tudo o que seja construído sob o fundo de uma “não-pertença” como resistência ao sistema.
3.
Este propósito do "aparentemente contra” mobiliza e desvia o olhar para ruídos, palavras e discursos, que se multiplicam e reorganizam em propaganda e mecenato. O espectáculo do mercado dá lugar à publicidade renitente do homem poderoso - um novo estado de exacerbamento do consumo, assente na exibição ostensiva de posses, que se estrutura num aglomerado de acções propagandísticas, anuladoras da verdade e do sentido natural das obras. O silêncio assume-se como um dos métodos mais eficazes para controlar esse formidável barulho, fluxo de palavras/notícias, sustentado pelos ciclos produtivos da civilização urbana e industrial, que subsiste em todas as partes do sistema de valores burgueses, num crescimento exponencialmente decisivo, e que resulta de factos insignificantes que concorrem, em sobreposição, com todos os seus acontecimentos.
Os silêncios invocam instantes do indizível. São um pequeno luxo da nossa sensibilidade desorientada, a qual requer a maior das dedicações para que nela seja possível alcançar o seu rumor compreensivo. Se há alguma ideia de arte que possa ser transmitida através de uma atitude de distância - no lugar onde o artista tem direito a existir perante aquilo o que os media recriam diariamente - o valor da sua intimidade tocar-nos-á como tudo o que não se vê no espaço de retirada para lado nenhum.
O público uniformizado por um gosto oficial e massificador é uma peça de caça. Enquanto alguns justificam a sua crítica e tentam impingir racionalizações salvadoras sem continuidade, as palavras que iludem e desviam as nossas sociedades dos valores e da imaginação, imperam. No sítio onde todos os outros continuam a proliferar, os heróis, protegidos pelos que nunca poderão subverter nada, empregam-se em tarefas de tornar aceitável o que não é minimamente suportável. Prepara-se a glorificação de um estado onde se diz que todos aqueles que querem e se esforçam podem ganhar; continua-se a matar o tempo com distracções, em vez de se lhe extrair as maiores vantagens, ou de o aplicar em trabalho por conta própria, para que todas as narrações aqui relatadas não sejam mais depressa visitadas do que as exposições a que dizem respeito.
Um sentido libertário reclama que se ignorem os discursos que se fazem representar, cada vez maiores e mais planos, dentro do pequeno sistema da arte contemporânea, e que tanto se aproximam da retórica do populismo recreativo, e popular. “Uma transgressão deve conhecer sempre o que transgride, o que torna a transgressão sempre impura, e preventivamente comprometida com o que transgride”. (3)
(1) Jacques Derrida, Maurizio Ferraris, O Gosto do Segredo, Fim de Século, Lisboa, 2006, p. 28.
(2) Ibid, pp. 43-44.
(3) Ibid, p. 62. |