“Auschwitz correspondeu a um mal moral que outros crimes de guerra não chegaram a ser porque pareceu deliberado como outros não foram.” (1)
Percorremos o mesmo espaço cheio de lembranças recentes de escravatura em massa. Organizamos as mesmas simbologias do terror, que as teorias do risco nos apontam como novos conjuntos de medos. O espaço “que não chegou a ser”, mantém-se intacto numa nova configuração, ignorando o uso e detecção da violência que se alarga e dispersa por todas as partes do mundo. Tememos o buraco de ozono, o aquecimento global, a utilização da manipulação genética, o conhecimento do nosso ADN, e deixamos em paz a escravidão, que agora se movimenta numa profusão de imagens de dor e sofrimento, transmitida em circuito TV. Apoiamos as raças reprimidas, que mudam e trocam a sua identidade por ofertas de sobrevivência, passando de uma espécie perseguida a um povo subsidiado. O volume de população empregue no meio industrial e produtivo está a ser despersonalizado e, quem trabalha, insiste em tornar mais próximas da aceitabilidade global, essas estranhas sensações de perda e de catástrofe que nos cercam.
As massas vão continuar a incomodar de modo simbólico, formando um ensurdecedor barulho civilizacional, silêncio habitado por um imenso rumor de máquinas automáticas a trabalharem sozinhas - mecanismos que se desresponsabilizam e se reestruturam incessantemente por dentro das mais variadas tarefas. Os ilegais, os sem abrigo, são os herdeiros deste presente excluído, composto por novos patrões/patronos, instituídos em empresas de escala celestial. Gente que constrói organizações sublimes sem território, nem área de permanência, elabora processos organizativos que dominarão o nosso mundo e apagarão, com ainda mais rigor, os vestígios de uma liberdade demasiado ingénua.
O ignorante passa a personagem-chave desse futuro, ou o indivíduo que se tornou incapaz de exprimir os seus interesses numa dimensão universal. As formas surgidas desta reestruturação de sentimentos, traduzidos no empolamento de acumulações de posse, aproximam-se do prazer cego de desfrutar; o prazer pela satisfação de um enorme gozo, no meio do enorme desfalecimento planetário, que aparece como insulto obsceno e insonorizado, num deslizar sonoro que ecoa sobre o grito de revolta das vítimas, abafando sentimentos e discursos aprisionados por isolamentos acústicos, nos locais que conhecemos como nossos, e que se transformaram, também, na face exterior descoberta a reflectir uma dor inadiável e clínica.
“O desmonoramento da autoridade paterna tem, por conseguinte, duas faces. Por um lado, as normas proibitivas simbólicas são cada vez mais substituídas por ideais imaginários (de sucesso social, de beleza corporal…); por outro lado, a ausência de proibição simbólica é reforçada pela reemergência de figuras ferozes do supereu. Estamos perante um sujeito extremamente narcísico, ou seja, que tudo apercebe como ameaça potencial do seu precário equilíbrio imaginário (a universalização da lógica da vitimização é esclarecedora: todo o contacto com um outro ser humano é vivido como uma ameaça potencial – se o outro fuma, se me lança um olhar ávido, está já a agredir-me) … (2)
Existe uma crise moral evidente. Há demasiados interesses em jogo e eles são cada vez mais difíceis de contornar. O esvaecimento dos valores humanísticos, deslocaram a ética para as margens das relações sociais, cada vez mais reduzidas a uma gestão de oportunidades e ambições, tornando-a num programa de deserção dos grandes desígnios das nossas representações simbólicas. O indivíduo foi circunscrito a atitudes pragmáticas, onde cada um trata exclusivamente dos seus pequenos assuntos, e o carreirismo oficial para o primeiro plano da sua vida. Ter uma imagem actuante e de resistência adquire uma importância crescente, e saber ocupar todos os lugares disponíveis, agindo anti-socialmente, tornou-se uma arte fundamental de vida, uma prática de sobrevivência, nada facilitada pela formalidade e pela burocracia das boas maneiras. Todas as actividades foram submetidas, e quem contraria este regime, só explicável segundo uma ideia de humor negro, através da glorificação da injustiça que impele ao empobrecimento global, reaparece como um homem sem tempo, que se reafirma através dos actos mais ínfimos e anónimos.
É preciso que todas as actividades inerentes à vida tenham, na sua própria justificação, uma tentativa de busca por uma consciência recta, capaz de sustentar uma capacidade eficaz de resistir. O colectivo que nos asfixia, revela a presença de um interesse alargado, incapaz de ser universal, expresso numa ampla liberdade de julgar e excluir, só possível através da falta de um escrupuloso respeito pela igualdade de oportunidades, tratamentos e exposições. Sabe-se que o bom senso exige um trabalho de reflexão fora do estado natural de sensatez e equilíbrio. Quando se observam as várias ideias desde logo debilitadas pela inexistência de um mecanismo de contra-discurso suficientemente audível, revelado elemento fundamental de denegação, conclui-se que os monopólios da ignorância continuam activos e em desenvolvimento, e que tudo se repete num processo egoísta de afirmação. O sucesso, fruto do isolamento, e a falta de tendências, conduzem ao ridículo e a um frágil procedimento de rasura e omissão, enfraquecendo conteúdos e prejudicando a leitura das visões periféricas de todos os que se encontram do outro lado. Novos elementos pró-activos preparam uma mundialização, da qual ninguém espera nada de maravilhoso. O culto exacerbado da revolta, assim como o elogio das marginalidades, irrompem sempre de forma deslumbrante, sem qualquer tipo de significado, nem efeito, num lugar já totalmente descoberto e cheio de movimentos enganadores. O gesto da indignação moral, destituído de qualquer acção e fundamento, ficará para sempre dependente da prevalência dos mansos costumes.
“O problema é que, além da insegurança, é que desapareçam também das cidades, alem das principais atracções da vida urbana, a espontaneidade, a maleabilidade, a capacidade de que a caracterizam de surpreender e de ser ocasião de aventura. O que se substitui à insegurança não é o êxtase da calma, mas a maldição do tédio.” (3)
A ideia de asfixiamento surge da vontade inerente sobre tudo o que pode pôr fim à vida. Não é que se considere fundamental morrer dessa maneira. Cada um terá o seu modo próprio de terminar, e até já pensamos nisso muitas vezes. Existe um ruído obsceno no asfixiamento que encanta. Por vezes engasgamo-nos e pensamos que vai ser desta, mas afinal tudo se resolve e volta-se à normalidade depois de um ataque de tosse. Uma corrente de ar que passa por debaixo da porta induz que nada está ostensivamente fechado. Há um calmo trajecto de vento, que estremece os vidros, e deixa vestígios da sua passagem nas paredes. A crescente circulação relacionada com o movimento do ar e os seus efeitos nas vias respiratórias, faz temer o pior; a violência latente de todo o envolvimento social e as revoltas passivas, cada vez mais apáticas, revelam uma população totalmente entregue à sua própria exploração, em nome de uma ideia de progresso banalizado pela retórica burguesa, que segundo Anatole Baju exprimiria «a marcha ascensional da humanidade».
Sentimo-nos como aquela pessoa que viu as suas propriedades invadidas por gente estranha, desde a curta alameda de acesso à habitação até à cerca que envolve todo o jardim. Várias figuras avançavam e encarávamo-nos em silêncio. Era uma grosseira observância, uma visão preparatória do condomínio fechado, que nos fazia sentir muito mal na nossa própria terra.
As pessoas são as vítimas predilectas do estado demiurgo de poder formado a partir dos seus hábitos. Somos os portadores de uma legião de preconceitos, assimilados pelo mecanismo estruturado da educação oficial, controlado pelo efeito paralisante de uma sociedade conservadora e retrógrada. Estamos entre os dois lados da cidade; o verdadeiro e o falso, o medo e a surpresa. O mal pode ser a grandiosa manifestação do falso e, quanto mais derradeiro, menos parece diferente em relação ao verdadeiro. Cada indivíduo está aprisionado na sua proeza, na sua capacidade de saber sobreviver. Tudo o que é falso adquire algo de verdadeiro quando é mostrado como falsificação. As cópias do mal metamorfoseiam o original, incorporando doses de verdades na sua elaboração do medo. O verdadeiro horror do falso é a incapacidade de se conhecer a dimensão da falsidade e as suas graduações de mal. Aquilo que se apresenta como original perde, desde logo, a regularidade objectiva e deixa entrar nos seus domínios a transmutação da surpresa que se dimensiona em mal. Ninguém se transforma mantendo para sempre a sua forma original. O nosso corpo incorpora essa mudança através do envelhecimento e vamos passando a ser reproduções de nós próprios em instantes diferentes. Com o tempo ficamos mais intrincados em significações e complexos de medo e surpresa, e de mal e verdade, que nos avisam. Os velhos são como os recém-nascidos, desenvolveram um défice de identidade relativa, que se revela na tendência para uma libertação dos constrangimentos, tornando-se figuras em que foram retiradas as atitudes mais convencionais e adquiriram uma nova carga de inteligibilidade. São de facto efeitos assustadores dentro do conceito muito arreigado do espírito único para uma vida, mudanças inesperadamente variadas que contêm um irónico revivalismo de formas maléficas por cima de um esqueleto que se modifica na aparência, seguindo o itinerário dos medos que se projectam sem fim no horizonte das nossas historias.
(1) Susan Neiman, O Mal no Pensamento Moderno - uma história abreviada da Filosofia, Lisboa, Gradiva, 2005.
(2) Slavoj Zizek, Elogio da Intolerância, Lisboa, Relógio d’Água, 2006.
(3) Zygmunt Bauman, Confiança e Medo na Cidade, Lisboa, Relógio d’Água, 2006.
ARENDT, Hannah, Eichmann in Jerusalém, uma reportagem sobre a banalidade do mal, Tenacitas, Coimbra, 2003, p. 105;
BAUMAN, Zygmunt, Confiança e Medo na Cidade, Lisboa, Relógio D’Água, 2006;
BERLIN, Isaiah, O Poder das Ideias, Relógio d’Água, Lisboa, Maio 2006, p. 167;
DELEUZE, Gilles, Crítica e Clínica, Sec, XXI, Lisboa, 2000, pp. 58-59;
NEIMAN, Susan, O Mal no Pensamento Moderno - uma história abreviada da Filosofia, Lisboa, Gradiva, 2005;
ONFRAY, Michel, A Política do Rebelde, Instituto Piaget, Lisboa, 1999, pp. 243-244;
SEBALD, W. G., Historia Natural da Destruição, Lisboa, Teorema, 2006.
TODOROV, Tzvetan, Memória do Mal, Tentação do Bem, uma análise do séc.XX, Asa, Porto, 2002, p. 147;
ZIZEK, Slavoj, Bem-Vindo ao Deserto do Real, Lisboa, Relógio d’Água, 2006;
ZIZEK, Slavoj, Elogio da Intolerância, Lisboa, Relógio d’Água, 2006; |