Ben Riley
Monk Legacy Septet, Memories of T
Concord, 2006
Ben Riley esteve lá, foi cúmplice, companheiro e testemunha no grupo de Thelonious Monk.. Assimilou a musica de Monk no seu próprio tempo, viveu o seu mundo, parafraseou as suas linguagens, memorizou momentos de superação únicos e irrepetíveis e por isso mesmo adquiriu uma autoridade ética fundamental, uma energia intelectual indispensável que lhe vai permitir a realização desta obra. Um disco que retoma as questões da identidade Monkiana, numa espécie de balanço final conjugado no futuro que, assim, ficou fixado neste trabalho agora editado. Trata-se de um trabalho que configura a imagem do grande músico, reflectido sobre um conjunto de memórias, que se propagam ainda de forma viva, através do seu legado musical reparador. A obra de Monk deverá ser aplicada individualmente, lembrando a cada um, o tempo das grandes privações e da oposição politica que foi sujeito. Hoje vive-se numa era de intensa mobilidade, sob uma precariedade de posturas, numa artificialidade dentro de um regime de faz de conta generalizado que assenta os seus fenómenos mais visíveis na artificialidade do social. Aqui neste espaço sonoro/musical aberto por esta obra, recentemente publicada por Bem Riley retoma-se por instantes os momentos exaltantes do jazz, nos quais todas as destruições físicas e simbólicas eram actos criadores e ambivalentes, sem os quais a ordem não poderia sobreviver. Agora resta-nos esta musica e pouco mais relativamente ao
mal-estar que se vivia na sua época.
Martial Solal
Newdecaband, Exposition Sans Tableau
Nocturne Jazz, 2006
Numa clara alusão à obra do compositor clássico Modest Mussorgsky, Quadros em Exposição, Martial Solal escreve-nos uma obra ao contrário (exposition sans tableau), denotando um amplo sentido musical que procura enviesar estéticas ao coleccionar episódios sonoros desconexos. Já conhecíamos as suas experiências e os seus extraordinários recursos como improvisador exuberante. Agora podemos adquirir uma outra dimensão nesta sua actividade de compositor que aqui nos fica suficientemente representada.
Este músico afirma-se aos 80 anos como uma das mais notáveis personagens do jazz contemporâneo. Reassume de uma forma legítima a figura do deambulador (flâneur) musical, do vagabundo no mundo sonoro em globalização, do passageiro entre músicas que se exprimem nas metáforas contínuas sobre o mundo do jazz em extinção. A musica, o acto abstracto por excelência, combina os restos das figuras estéticas de uma existência pós-moderna e que agora se associa a movimentos fragmentários e descontínuos da nossa identidade colectiva em mutação, com a paixão de alguém que ao escrever não passa de um mero provocador de emoções.
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