Ao longo de toda a história da modernidade podemos verificar que se construiu uma linha divisória entre a civilidade e a barbárie. Activou-se um espaço de ninguém, que nunca coincidiu com as fronteiras dos estados. A violência, esse grande passatempo das sociedades contemporâneas, passou a ser um jogo de guerra privado, uma tentativa de se sair de um regime de monotonia, repetição e determinação, no qual todas as nossas resistências deixaram de ser atentados à ordem estabelecida.
Num contexto de inadequação das acções relativamente às formas actuais de verdade, a violência passa a ser um subproduto de um processo industrial repleto de desperdícios produtivos. O que as organizações fabricadoras da ordem criaram, de forma clandestina, não foi mais do que esse material coercivo de má qualidade, que não se pode reciclar, nem transformar em substâncias úteis de redefinição ordenadora. As superfícies de sobrevivência jamais poderão ser zonas limpas de factores imprevistos, sem o horror e a lixeira dos casos sociais que as pequenas transgressões fomentam incessantemente, apesar de todos sabermos que nenhuma ordem consegue ser, em absoluto, o que à partida se espera que ela seja.
O uso da força faz-se através de uma redistribuição das violências. Gerem-se amortecimentos dos impactos, retirando a pressão dos lugares terrivelmente massacrados e incrementando novos usos legítimos de mais força, no interior dos territórios menos desgastados. A realidade recebe hoje uma grande quantidade de nomes diferentes dos que foram referidos por Hannah Arendt nas suas tentativas de explicar o mal, situado numa civilização de fronteira que se expande e multiplica em desejos insaciáveis de conquista.
Muitas das palavras que vivem associadas ao fenómeno da violência praticada nas sociedades democráticas, que temperam os actos agressivos com uma nova nomenclatura semântica, estruturam-se numa retórica mais acéptica e mais acrítica. A legitimidade da força, o monopólio do uso, a necessidade de intervir, o respeito pelos valores, a utilidade do controlo, são contraposições oficiais para um conjunto de momentos que se definem por ilegítimos, indesejáveis, nocivos, gratuitos. Há sempre um discurso que tenta refazer uma distinção entre o bem e o mal; entre a ordem construída e tudo o existe para lá dela: o errático, o imprevisível, o incontrolado, o inesperado, o contingente, o espontâneo…
John Law observou que a modernidade deu origem a um monstro: “a esperança ou a expectativa de que, se todas as coisas pudessem ser puras; a expectativa de que, se todas as coisas fossem puras, tudo seria melhor do que no presente – e nós escondemos assim a realidade segundo a qual o que é melhor para alguns é quase certamente pior para outros, o que é melhor, mais simples, mais puro para uns quantos, continua a assentar precária e inseguramente no trabalho e, muitas vezes, na dor e na miséria dos outros”. (1)
A ambiguidade das nossas experiências reemerge numa ambivalência pós-moderna encontrada na relação do estranho/estrangeiro, esse ser que se refaz, através dos tempos, como a sombra do nosso primeiro ímpeto assassino. A impossibilidade de termos um rosto perante nós próprios, promete-nos graus de experiência nunca antes experimentados, livre-acessos a uma nova aventura, ainda mais impessoal que a do desenvolvimento da tecnologia, que retira todas as pressões morais sobre os nossos actos mais violentos. As leituras dos rostos das pessoas – nossos objectos de violência favoritos – requerem esforços de identificação sobre o outro, como se o outro que nos observa coincidisse no misterioso que nos intimida pelas suas feições incertas. Os esforços de interpretação não passam de uma tentativa de atribuição de sentido, que se pode fixar nas manobras de retomar impressões sobre alguém que se encontra, de forma humana, diante de nós. O abandono deste exercício de comprometimento ontológico, esse empenho em se ler as outras pessoas, induz-nos, quando alienados das nossas preocupações, momentos de medo e ódio que nos levam a graus apurados de insensibilidade de actuação perante as formas mais evidentes de acção violenta.
As sociedades contemporâneas reestruturam-se seguindo um modelo de experimentação no vazio impessoal dos espaços virtuais, terrenos cheios de perigos, onde os habitantes do lado podem ser os verdadeiros portadores de terríveis ameaças. O sonho do lugar defensável, na busca de um território transparente e seguro, limpo de riscos, que extrai a sua força predadora da necessidade de alcançar um limite sobre a nossa soberania individual ou colectiva, reflecte-se numa imagem pacificadora de um «lar». O estranho tecnológico transforma-se num espaço portador de uma incompatibilidade insuperável, que define linhas orientadoras de actuação, as mesmas que nos cercam cada vez mais e mais, e nos obrigam a agredir, veementemente, tudo o que se nos revela singular e desconhecido.
A fragmentação dos actores reproduz a fragmentação dos objectos. A divisão do trabalho em tarefas parciais faz de cada actor um executante de um papel. Estes seres executantes são facilmente substituíveis e intercambiáveis, porque há sempre uma distância relativa entre eles, que os assenta num posto dessa complexa rede de tarefas, onde nada é identificável. Não existe intervalo suficientemente largo para cada um ser capaz de desenvolver uma zona clara de autoria relativamente ao resultado final da operação, uma vez que cada actor é um executante para uma ordem indiscutível e um emissor para outra organização indecidível. Esta conjugação de factores não permite o aparecimento de seres completos, capazes de assumir as responsabilidades do que fazem, produzindo, assim, objectos sem endereço e resultados abstractos nos contornos morais que se lhes poderia atribuir se fossem questionados por verdadeiros sujeitos éticos. Prospera um magma de neutralidades éticas e morais, um conjunto anódino de actos que sobrevivem na divisão vertical e horizontal do conjunto de operações que se fazem sempre em encargos parciais. O seu resultado é este grupo imenso de gente inconsequente, estas pessoas que se movem no interior das organizações onde actuam e compactuam, e que não podem lidar com os problemas da vida e da existência como se fossem seres humanos, porque só conseguem apreender o mundo que as rodeia de acordo das suas fragmentações e facetas, traços de duvidoso sentir humano, só estatisticamente representáveis.
A menoridade global expande-se em todas as organizações contemporâneas que extraem a sua força da quietude dos seus elementos, da incapacidade de agir criticamente sobre eles, recriando um governo de ninguém, exposto na diluição de responsabilidades. Todos desejam ficar livres das limitações impostas pelos sentimentos éticos, transformando em balda carnavalesca a fantástica possibilidade dos homens e das mulheres cometerem actos inumanos sem se sentirem minimamente inumanos; Hannah Arendt concluiu, antes de todos, que «a antiga bestialidade espontânea dá lugar a uma destruição absolutamente fria e sistemática de corpos humanos». (2)
(1) John Law, Organizing Modernity, Blackwell Publishing, Oxford , 1994.
(2) Hannah Arendt, Origens do Totalitarismo, D. Quixote, Lisboa, 2007.
Hannah Arendt, As Origens do Totalitarismo, D. Quixote, Lisboa, 2007;
Hannah Arendt, Reponsabilidade e Juízo, D. Quixote, Lisboa, 2007.
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