As edições da obra de Zygmunt Bauman em Portugal, preenchem um vazio de discussão que é urgente promover. Encontramos, nas desculpas habituais sobre o nosso atraso crónico, uma disfarçada e silenciosa distracção, uma justificação expressa no ruído da cultura oficial que, incessantemente, se auto-proclama actualizada e não se cansa de zelar pela ocupação mediática de toda a superfície disponível de divulgação.
Felizmente, as ideias contidas nestes livros afastam-se das retóricas deferidas. O sistema económico, político e social, é formado por tudo o que nele está inscrito e normalizado, não se mostrando aberto a perceber o seu lado exterior; isto é, aquilo que se encontra em rápida mutação. O sistema deseja apenas perpetuar-se e Bauman, ao ignorar as questões estranhas à sobrevivência imediata, dispensa-se de utilizar um tipo de informação utilitária e propagandista que o instituído usa escandalosamente, construindo, a partir desta brecha, uma obra aberta sobre muitos dos problemas fundamentais do nosso tempo. Estes livros incitam a um caminho individual e independente, no qual podemos coexistir entre opções, na defesa da nossa liberdade que está a ser perigosamente manipulada e que se torna urgente defender.
Considerado um dos mais importantes pensadores da actualidade, Zygmunt Bauman nasceu na Polónia, no ano de 1925. Proveniente de uma família judia pobre, veio a fixar-se, depois da guerra, em Inglaterra, onde passou a viver e a leccionar. Esta experiência pessoal iria influenciá-lo na primeira fase da sua obra, reflectindo o seu interesse por questões relacionadas com o holocausto e a liberdade. As suas reflexões mais recentes incidem sobre temas que nos aparecem de uma maneira cada vez mais intensa no momento presente, como seja a globalização, a cultura de massas, as relações e resíduos humanos, a modernidade, a economia, a ecologia, a genética, a politica, a ambivalência, a fluidez, os medos ou o terror, revelando-nos muitas preocupações com as formas contemporâneas de poder.
Desenvolvendo discursos simples e claros, partindo de uma linguagem que contrasta com os discursos optimistas que nos habituamos a escutar, o seu trabalho coloca-nos uma série de questões sobre a ordem social e as suas repercussões na organização do quotidiano. Ao abrir esta discussão, Bauman analisa o que se encontra estabelecido e reconhecido nas nossas sociedades contemporâneas e considera a possibilidade de se acharem novas soluções, entre outros momentos propiciadores ao aparecimento de uma nova ordem que poderá ser construída a partir da individualização e da privatização das relações, fazendo uma nítida demarcação das teorias e das ideologias assentes no império sócio/político cultural. Ao inverter, de forma ostensiva, o modo como se observa o processo de estruturação social idealizado no passado, maioritariamente assente em ideologias da salvação, Bauman passa a conferir ao privado uma nova preponderância sociológica, partindo da ideia de prevalência do elemento individual sobre o social. Este elemento torna-se num momento fundamental e particular para as suas formulações futuras, com vista às acções colectivas directas.
Constatamos, contudo, nesta nova ampliação de papéis dos indivíduos, que as transformações exteriores têm de passar por transformações individuais, como parte preparatória necessária à realização das alterações sociais globais. Os indivíduos precisam de ser flexíveis para estarem preparados para todas as incertezas futuras, sabendo-se de antemão que nunca ninguém será capaz de transformar a sociedade na sua totalidade. Haverá, assim, uma ambivalência nas relações entre as esferas privada e pública, determinada por uma falta de fixação, a inexistência de um ponto simultâneo localizado entre o processo individual de auto-afirmação e a capacidade colectiva para se controlarem situações de ordem social. O medo apresenta-se como um motivo capaz de nos fazer agir num contexto onde o futuro é catástrofe e incerteza e, portanto, algo susceptível de forçar mudanças individuais e de se confrontar com uma ordem que, sendo rígida, depende e parte de um sentimento produzido por uma ideia de liberdade.
Na demanda ética interminável sobre uma realidade que nunca se conclui e que nunca se aperfeiçoa o suficiente, sentimos que fazemos parte de um projecto inacabado e, por isso mesmo, somos atirados para a experiência do estado de insegurança e de incerteza permanentes, no qual todos os receios estão presentes. Ao precisarmos de encontrar soluções de existência nesta realidade informe e liquefeita que nos leva a sermos seres eternamente isolados, temos de ter em conta que nunca iremos possuir recursos suficientes para a enfrentar.
Quando Bauman afirma que sólido é aquilo que, para outros pensadores como Webber e Marx, surge como retrógrado, ultrapassado, rígido, duradouro e previsível nas suas formas e possibilidades e em muitos dos seus aspectos (económico, social, político etc.), está a anunciar o estado de liquefacção das nossas sociedades actuais. Essa falta de solidez que ele define como algo que é capaz de determinar o estado de desintegração do discurso sólido, com a sua fragmentação nos seus vários derivados institucionais, representa, entre outras coisas, a anulaçao do espaço sensorial de locomoção, contrapondo à mobilidade das sociedades contemporâneas o exemplo do derretimento dos padrões vigentes. O que é precário ou inexistente nesta realidade em mutação, tranforma-se na marca desse movimento (contínuo), gerador de uma falta extrema de confiança exposta no medo apocalitptico contemporâneo.
Nesta linha de raciocínio trágico da sua obra, Zygmunt Bauman explica que a sociedade actual expande-se de um modo simbiótico, adquirindo, nas suas movimentaçoes sociais, políticas e económicas, uma tonalidade circense e excessiva. Esta tendência para o burlesco e para o escandaloso resulta da visão estilhaçada dos afectos e das emoções sobre uma realidade desfigurada por profundas ciatrizes históricas. O mundo organiza-se sobre os pedaços de dogmas destruídos, das peças desconexas das ideologias falhadas, dos remendos financeiros provenientes de uma produção mecanicista deficiente, das falsificações das montagem económicas, das retóricas patológias da política estatal do bem-estar, das monstruosidades tecnológicas das organizações belicistas, dos meios urbanos degradados e portadores de graves anomalias e das falências nas apostas de progresso a longo prazo. Todo este lixo histórico que rodeia a modernidade líquida presente, impede o recurso à subjetividade, às ideias que deviam ser um contraponto apaziguador no meio das inúmeras coisas materiais que nos impedem de pensar, descobrindo-se que não há nada de mais leve e versátil do que uma ideia campista , algo que se revela de forma nómada, como aquilo que se transporta, monta e desmonta, facilmente.
As pessoas são os habitantes sedentários e preguiçosos deste grande mercado global, onde o público imóvel se instruí sobre o nada que o cerca e se envaidece pelo simples facto de ser um pequeno actor sem papel que inventa circunstâncias momentâneas de encenação, para não correr o risco de adquirir uma união real/ideal afectiva. As pessoas não sabem criar mais do que a sua própria excitação, desvanescendo num autostress miserável de desempenho. E apreciam, no seu próprio consumo, aquilo que se prolonga na finitude do cheiro das coisas novas. As pessoas escolheram entre a liberdade (no sentido genuíno do termo) e segurança dos produtos consumidos, a liberdade demencial da sua posse. Elabora-se uma relaçao incipiente, projectada em aquisições de plástico, metal, high-tech ou mesmo carne, osso e sangue, nas coisas assumidas como um acessório de fábrica, que depois serão digeridas em momentos de ritualizaçao carnavalesca.
Bauman é o pensador de uma actualidade chocante que denuncia convites e mensagens fraudulentas deste mundo TV , uma máquina que emite permanentemente verborreia e fanfarronice de forma ostensiva e obscena.
Zygmunt Bauman, A Vida Fragmentada – Ensaios sobre a Moral Pós-Moderna, Relógio d'Água, Lisboa 2007. |