Ficamos facilmente aprisionadas em momentos que parecem disfarces. Histórias infantis, narrativas ingénuas, nada dizem sobre os nossos aborrecimentos, nem sobre o imenso tédio que sentimos. Num esforço de superação duma conjuntura tão desanimadora, percebemos que a escrita está afundada na denúncia daqueles que rastejam amedrontados e aceitam delegar nas instituições a recriação de uma ideia de segurança. As práticas burocráticas acumulam informação sobre inimigos e controlam relações de cumplicidade e compromissos. Os espaços íntimos abrem-se a rotinas de acompanhamento e observação, como réplicas de uma lógica concentracionária, activa e intacta, na sua silenciosa degeneração. Pessoas receosas exprimem medo, solicitam mais vigilância e lembram o grandioso pesadelo de uma humanidade cada vez mais exposta ao terror. A força das armas e o poder militar expandem-se na proliferação de mecanismos sofisticados para visionamento e escuta. A nossa ideia de liberdade é sucessivamente anulada por actividades de recolha e tratamento de dados. Inventam-se e instalam-se equipamentos ligados a máquinas de vigilância planetária remota, em estruturas inteligentes e orbitais que controlam, seguem e localizam. Nos livros de W. G. Sebald esquecemo-nos que estamos sempre a criar uma nova entidade que vive exclusivamente para destruir os indivíduos mais perigosos e que tenta identificar, em tempo útil, todas as pessoas de carácter duvidoso. Esta organização não tem tempo real, nem verifica a ineficácia do sistema onde actua, porque como todas as estruturas burocráticas, ela só sabe reproduzir, de forma automática, aquilo que necessita para se perpetuar.
Os espaços são dirigidos por interesses supranacionais, sendo extremamente difícil possuir a noção exacta da dimensão dos meandros e dos movimentos obscuros que se desenrolam neste clima de alerta permanente. Sobrevive-se dentro de territórios cada vez mais fechados e mais pequenos, sem vizinhos nem testemunhas que denunciem violações. O desrespeito pelos direitos humanos banaliza-se na reprodução insensata das imagens de massacres. Neste desaparecimento rápido dos espaços vitais, o desenvolvimento individual sobrevive em cubículos de conhecimentos, compartimentos solitários, ideias mínimas de identidade e criação que precisam de ser transformadas em silêncios e isolamento. Há uma teatralização neste lugar contemporâneo que utiliza a pose falsificada dos dirigentes para obrigar milhares de pessoas a iniciar uma fuga anónima de um contexto destrutivo. O excesso de vigilância não cria processos saudáveis de construção de individualidades, nem promove o nascimento de identidades duradoiras. Estudam-se e analisam-se pessoas… montes e montes de informação bruta, na procura de uma verdade fugidia. Promove-se uma droga sintética que aumenta o grau de veracidade dos acontecimentos e actua sobre a capacidade individual de criticar. O stress e o medo, a excitação e o prazer, são subprodutos industrializados duma insegurança global e consumista. Gestos e olhares perscrutadores detecções são actos que habituam e preparam uma vida em regime de comportamentos carcerários. As sociedades globais são mais competitivas e estão a ser dopadas em larga escala. Criam-se, artificialmente, seres dependentes de bens de consumo e fomenta-se, em paralelo, todo o tipo de práticas desumanas, aplicadas, de forma discreta, no trabalho intensivo chegado ao limiar de uma nova era de mão-de-obra escrava. O lado razoável do lazer está confinado a processos subtis de inacção que incrementam o uso alargado das velhas tácticas sedativas e amnésicas.
O esquecimento ajuda a refazer as alienações. As políticas, as economias, os desportos, as religiões… justificam o heroísmo das suas performances, nas imposições de uma nova disciplina uniformizadora. As fábricas são contentores que transitam na escuridão dos territórios e através deles vislumbramos as cercas de arame farpado e as paredes de betão que fecham novos territórios fronteiriços. Estamos impedidos de agir por fora das burocracias instaladas. As maiorias aceitam novas obrigações para produzirem e os homens são meras unidades produtoras que se satisfazem no passeio domingueiro de populações controladas e apáticas. As manifestações mais visíveis deste quadro localizam-se no voto democrático. As eleições são o apogeu da falsidade dos artifícios ideológicos e das intoxicações das manobras de persuasão fraudulenta. As realidades dominam as vontades e tornam-se lucrativas, entre as manipulações e chantagens, glorificando histórias de fraudes e corrupção, no jogo vistoso das vitórias dos êxitos efémeros. A cerimónia protocolar dos vencedores, a eternização das marcas gloriosas compreendidas numa luta mercantilista e concorrencial, verifica-se na multiplicação dos aparelhos de som e de imagem a debitar informação, incessantemente.
Ao desviarmo-nos desta actualidade artificiosa e hostil, pensamos nos processos sumários de todos os perseguidos, nas palavras arrancadas pela tortura e pela humilhação que viajam em círculo através dos sobreviventes de campos de reclusão. O zelo público colocado nas inúmeras tarefas burocráticas, na salvaguarda obsessiva pelo segredo da vida privada, produz indivíduos doentes concentrados no uso excessivo da aparência, contaminados pelo vírus de uma paranóia comunicativa. Os relatórios, os inquéritos e as sindicâncias confirmam o espírito ameaçador dos juízos sobre os comportamentos a partir dos quais as nomenclaturas do sistema aplicam rotinas taciturnas e correctivas, num afã burocrático que se quer dominador para conservar o seu poder.
Sebald refere-se a uma ideia de mundo, no qual não se pode falar daquilo que é mais manifesto, numa cultura que não revela a clareira fundamental das vivências pelas quais evoluímos e, quando tentamos apresentar o que somos, fazemo-lo através de configurações grosseiras, entre o bom e o mau. As histórias contidas nas suas obras são micro espaços de expansão literária que se estendem por todas as partes, locais e lugares perdidos, vagos, opacos, obscuros e, nesse sentido, resistentes – tudo o que se chama matéria opõe resistência à luz. Apesar da nossa realidade presente estar marcada por uma experiência histórica diferente das narrativas dos seus livros, podemos observar a enorme libertação de energia que as vidas aí descritas realizam, quando estão em confronto com as explosões causadas pelo processo de rememorar passados em tempo real. A vida é uma luta constante contra a obscuridade, um interior que está repleto de fluxos de consciência que não cessam de fluir e que necessitam de encontrar uma saída, um contacto com a luz que lhes permita reinventar e encadear o seu destino, gerando, a partir desse momento, um murmúrio de textos e subtextos que organizam o tempo intimo de cada um.
Sem termos a noção daquilo que nos acontece, diariamente, não conseguimos encontrar a melhor distância, nem o grau de dispersão suficiente para aguentarmos, muito tempo, cada um destes livros. Só lendo podemos sentir a decadência e a promiscuidade das retóricas oficiais. Nos livros de W. G. Sebald a cor predominante é o cinzento, que se detecta numa obsessão por arquivos. A morte move-se na ponta da palavra que acompanha a negação de todas as lembranças. As personagens vivem uma vida normal e movem-se em viagens que rejeitam terminar. Os lugares não coincidem com os espaços gradeados e os que sobrevivem não são reduzidos a cinza. Há um lado macabro, sempre incompleto e incompreensível e na noite podemos tocar o limite sobre o colapso que se pressente eminente.
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