Os livros podem conter tantas dúvidas que não sabemos o que fazer com elas. Se construímos uma ideia consistente, acusam-nos de simplificadores de circunstâncias e moralistas sequiosos de mais idealismos. Se passamos por cima de todas as dúvidas e desprezamos os seus efeitos mais desoladores, os livros olham-nos como meros propagadores inofensivos de coisas vazias.
Os profetas acompanham a desgraça, tantas vezes anunciada pelos livros, e as suas conclusões estimulam o diálogo, edificado sobre várias formas de entendimento, sobre obras antigas e recentes de uma filosofia que vai além de fronteiras formais e académicas para se situar num mundo mutuante e híbrido de realidades por catalogar. A poesia e a narrativa souberam servir-se de configurações metamórficas para alcançarem um saber filosófico, do qual nos aproximamos, por vezes, como seres que se habituaram a alimentar paixões e desejos mundanos. Outras vezes, olhamos para os representantes dos filhos dos deuses, nessa unidade de transcendência farta que espera por actos minimamente razoáveis de superação e, depois de tanta impaciência, retiramo-nos para os livros com confiança.
O livro “Uma Sociedade à Deriva” de Cornelius Castoriadis,fala-nos de abandono e das impossibilidades de descrever situações sociais que alterem de vez a desenfreada velocidade do modo de produção capitalista. O pensamento passa por um estranho exílio, uma fenda na história, como se uma nova horda de hominídeos tivesse tomado o planeta e imposto modos de viver sem sentido humano, nem futuro redentor. Não temos muitas coisas que nos agarrem, a não ser uma ideia de consumo avassaladora e a excitação generalizada que nos une de uma maneira perversamente imbecil e histérica.
O sistema faz-se representar pela intensidade dos media, pela inevitabilidade da política e pela ânsia exacerbada dos confrontos. Ser escândalo em notícia, caso de corrupção político/partidária ou vitória na arena de um desporto extremo e violento, para se conseguir um lugar neste espaço efémero de existência, transforma a vida numa doença, tentativa fracassada de adquirir imunidade, uma luta impossível contra um vírus alterado que nos reduz a um estado de febre insolente, pela falta de tempo que se aproxima de um momento de fusão e petrificação, entre todas as partes do nosso espaço temporal – esta espécie de orfandade planetária que experimentamos sob o peso das mudanças urgentes e da ameaça de aniquilação civilizacional. Aquilo que nos faz sentir melhor no interior das catástrofes e aceitá-las como um bem necessário, é uma prova sumária da existência cuja inevitabilidade do destino solucionará em definitivo. Não fomos feitos para ter preocupações tão abstractas, nem para renunciarmos a um estilo de vida pragmático, utilitário e desenvolvimentista, que nos impele a ser pessoas tendencialmente exageradas e excessivas nos nossos jogos terrestres.
No livro Adeus Sr. Socialismo, que futuro para a esquerda?” de António Negrihá a denuncia de um complexo megalómano, algo que nos atrai muito mais do que a ideia de salvação. Pensamos como se fossemos ovelhas e agimos com a intuição dos lobos. Nada nos dá respostas e as que procuramos estão mergulhadas num sistema complexo de desejos que tende a redesenhar contextos e manifestações, mesmo as mais contrárias, replicando sobre os ecos de si próprio.
Cercados por tudo o que precisamos, num exílio ontológico, no fora de um mundo, longe das fontes da sabedoria que nos permite olhar para o outro com uma compreensão mais nítida e mais clara na falta de finalidades, somos mais erro do que somos dúvida, somos mais angústia do que destruição e não sabemos como resolver esta estranha inclinação violenta que nos torna seres tecnológicos, cada vez mais antinaturais, que desconhecem o que se pretende, nesta tão antiga obsessão pelo progresso e pelo poder.
Cornelius Castoriadis, Uma Sociedade à Deriva, Entrevistas e Debates, 1974-1997, 90 Graus, 2007.
António Negri, Adeus Sr. Socialismo, que futuro para a esquerda?, Âmbar, 2007. |