A arte não tem em vista alcançar na sua concretização uma verdade factual e mesmo com o advento de equipamentos poderosamente tecnológicos de captação da realidade, nunca se conseguirá apreender nem comunicar de forma eficaz a imensa carga subjectiva que acompanha todas as imagens. O lado imaterial desta realidade não poderá jamais ser transmitido pelo incremento do grau de veracidade das imagens pintadas, desenhadas, fotografadas, filmadas ou dos inúmeros objectos construídos e esculpidos. O âmbito das nossas explicações levariam a situar a pintura e o desenho reunidos nesta exposição, como momentos de fixação de uma realidade que admite não poder dar conta de todas as solicitações artísticas que a imaginação requer no seu impulso de descobrir novas formas de superação e de exaltação do real. A pintura e o desenho de João Queiroz inventam uma realidade dotada de uma dimensão estética própria, mais descomprometida e mais livre das referências de onde provêm os elementos naturais que a compõem, dando origem a uma quase invisibilidade sobre o espaço que aparentemente deseja captar.
No confronto directo entre aquilo que identificamos como real e aquilo que nos aparece como irreal, e mais recentemente como virtual, há na nossa mediação entre estes três enormes blocos sensíveis de percepcionar uma simbologia autocentrada na pintura e no desenho, uma totalidade difícil de dissociar nas suas partes reais e não reais; verdadeiras e falsas. Esta exposição apresenta um conjunto de pinturas e desenhos sobre papel que têm como tema central as paisagens, espaços construídos de elementos vegetais, geológicos, entre outros, desprovidos de uma relação mais evidente entre si. Esses elementos são pintados um a um, desligados de uma continuidade formal que seria de esperar das geografias terrenas, compondo o seu conjunto uma imagem com aproximações à natureza, simultaneamente suspensa e dotada de uma certa qualidade atmosférica, que a envolve e a transporta do solo para o centro do quadro. Enquanto nas pinturas as composições são trabalhadas com recurso a métodos tradicionais, nos desenhos João Queiroz introduz a linha através de sulcos gravados sobre cera, previamente espalhada na superfície do papel. Nas pinturas existe uma procura de efeitos cromáticos pela conjugação de cores e de formas que nos induzem a espaços abertos, susceptíveis de neles se inscreverem ambientes naturais facilmente reconhecíveis; nos desenhos, uma qualidade monocromática realça um conjunto de procedimentos sobre a superfície do papel, fornecendo uma dimensão mais matérica a cada uma das obras.
A pintura surge-nos como um processo de captar a deformação da realidade ocasional e sucessivamente aleatória, algo que aumenta as possibilidades de libertarmos a nossa imaginação para podermos agir criativamente sobre aquilo que observamos. Desta forma, podemos considerar-nos uma parte actuante da realidade veiculada que chega até nós através das sugestões visuais que cada obra nos transmite. Somos os observadores de uma superfície que não podemos abandonar e que somente conseguimos olhar com coerência quando nos localizamos no lado de fora, sentindo-a numa perspectiva que nos é exterior. São paisagens que pedem para ser habitadas, logo devemos olha-las como um produto da imaginação pura, que não é artificioso na medida em que todos os elementos que apresenta são passíveis de existirem individualmente. Estamos deste modo eternamente do lado de fora de cada obra e somos simultaneamente uma parcela integrante, que goza do privilégio de percepcionar as suas formas soberbas. Muitas vezes confundimos as nossas apreensões com as configurações e os espectros representados por João Queiroz, que parecem mais insinuados do que construídos e, por isso mesmo, inacabados na sua maior parte,
deixando-nos em excelentes situações para os interpretar. Ao confrontarmos as pinturas com os desenhos e as formas utilizadas em cada um deles, podemos eventualmente verificar que existe uma relação muito íntima entre as duas abordagens: a pintura e o desenho surgem como contraponto um do outro, o verso e o seu reverso. Enquanto no caso das pinturas as formas nascem da conjugação das linhas estabelecidas pelas cores e pelos movimentos das uniões entre elas, nos desenhos, verifica-se apenas o aparecimento de sucessivos riscos ou linhas gravadas na cera, não existindo uma preocupação de se estabelecer aí qualquer tipo de jogo cromático ou combinação de cores. Se através de um processo de projecção numa tela pudéssemos sobrepor os desenhos e as pinturas, obteríamos talvez uma terceira dimensão que nos era dada por uma mistura das cores de uns com os traços e limites de outros. O desenho pode então considerar-se como uma espécie de esqueleto ou exploração linear que depois é composta a outro nível mais pictórico através da utilização da cor.
Esta exposição propõe um conjunto de imagens em fractura com o princípio da factualidade, que reconhece a necessidade da morte como a última das ordens da estética da representação. A ficção contida nos trabalhos expostos irrompe desses espaços tão irreais e contamina tudo o que se encontra à sua volta, influenciando e interferindo com o que nos rodeia. Nada ficou diferente, nem ficou susceptível de ser detectado a partir das paisagens que se pretendem fixar e a partir das quais aparentemente se basearam todas as experiências vividas pelo artista e por todos aqueles que as observam. Ao pensar estamos a estabelecer monólogos intensos com o que vamos vendo, mediando concordâncias e discordâncias; estamos a relativizar e a aceitar as perdas nas comunicações e na transmissão das intuições que executamos, reconhecendo diferenças entre o verso e o reverso, entre as palavras e os factos, entre artifícios plásticos e a realidade das coisas que são os elementos fundamentais que sustentam a nossa vida. Foi fácil visionar o futuro imaginando um dia em que a tecnologia poderia libertar a humanidade de todo o seu peso existencial, mas a realidade presente está cada vez mais inundada de informação e este sonho aparentemente libertário, tem vindo a tornar-se num imenso pesadelo. Alguma coisa falhou neste processo de captar o real e a partir daí serem imaginadas novas formas futuras. Apesar de tudo, julgamos que todas formas imaginosas ligadas à arte são soluções bem mais benignas, nas suas consequências, do que os problemas da liberdade anunciados pelo desenvolvimento tecnológico.
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