Todos temos uma ideia construída sobre D. Afonso Henriques. Hoje em dia, esta personagem é projectada numa imagem entre milhares de outras que penetram os nossos olhos, evocando um momento de contacto narrativo, resultante do impacto das inúmeras formas orais usadas para exprimirem essa ideia. Em geral, os acontecimentos que compõem estas narrativas possuem uma imensa carga simbólica, manifestada como meio de interacção entre indivíduos num amplo espaço de diversidade cultural, que agem em grupo coeso. Os diferentes mecanismos de transmissão de cultura e de informação accionados pelos meios de comunicação fomentam uma nova realidade que adquire uma importância essencial para o entendimento do actual processo de proliferação simbólica. No interior de uma lógica de representação, desenvolvida a partir da simbologia desta figura de dimensão nacional, a ideia de D. Afonso Henriques tem vindo a alterar-se, identificando-se e reinscrevendo-se em novas formas de expressão, partilhadas e alargadas ao longo do tempo. Através de acordos implícitos e consensos sobre as várias formas então encontradas para se projectar a identidade desta personagem, materializaram-se reconstruções através modelos de imagem que foram introduzindo permanentes alterações físicas e fisionómicas relativamente às primeiras versões que dela se conhecem. O mesmo se passa com os excessos narrativos da sua história, que é também a nossa história. Essas adaptações revelam uma riqueza e uma potencialidade poética interessantes, proporcionando uma série de novas soluções simbólicas, actualizadas conforme as exigências, as circunstâncias e as necessidades de sobrevivência de uma cultura, numa busca constante de identidade. As mutações verificadas nas diversas figuras de D. Afonso Henriques, bem como as narrativas alteradas da sua vida, indiciam que se estabeleceram a partir de parcelas da sua história, sucessivas viagens através do tempo, que estiveram na origem da fixação desses momentos. Os diversos materiais e suportes empregues dão uma ideia de liberdade e de multiplicidade sobre práticas culturais ajustadas a um interesse de adequação inconsciente, a partir das muitas solicitações e utilidades a satisfazer. Detecta-se em cada alteração elaborada sobre D. Afonso Henriques, uma solução de compromisso circunscrita num tempo próprio, que pretende alcançar uma representação capaz de servir uma necessidade de consolidação imaginária, no interior de um processo de reestruturação permanente.
Quando estabelecemos os primeiros contactos para esta exposição, de forma a reunir todo o material que agora apresentamos, estávamos muito longe de antecipar a quantidade e a variedade de materiais que tinham D. Afonso Henriques como tema central. As soluções estéticas contidas em cada um dos documentos e objectos descobertos, revelaram-nos um impulso criativo, denunciador de uma vontade de renovar permanentemente a imagem de desta personalidade singular e única nas referências históricas do nosso país. Estas adaptações feitas de imagens sucessivas expõem-se na sua extensão e no período de tempo para o qual cada um dos elementos que as compõem nos transporta. Sente-se a predominância de uma imaginação colectiva nos vários objectos e documentos expostos, pela flexibilidade das representações levadas a efeito, intuindo-se a necessidade de afirmação colectiva, que nunca deixou de possuir um interesse real por esta figura peculiar, catalisadora de um sentimento de maravilhoso, claramente expresso nos diversos papéis desempenhados nos mais importantes momentos da sua existência.
No momento actual, a estruturação da pessoa de D. Afonso Henriques tem de ser apreendida como uma elaboração multidisciplinar e diversificada de sensibilidades, traduzidas na selecção dos materiais recolhidos, projectando-se neles novas interpretações e significados acerca dos acontecimentos históricos. As inúmeras formas fragmentárias de o capturar enriquecem e acrescem de sentidos todos os elementos que lhe foram sendo associados através do tempo e que, sendo aparentemente contraditórios, não põem em causa nenhuma das suas anteriores referências. O tempo provoca uma horizontalidade na visão histórica e os momentos considerados cruciais deixam de ser acontecimentos definidos, segundo uma lógica de verdade, para adquirirem uma curiosa simbologia de utilidade colectiva e de força agregadora. O corpo que foi sendo atribuído a este Rei, está a transformar-se numa imagem em disputa com outras tantas representações possíveis, para assumir uma dimensão cada vez mais real, e portanto mais eficaz, na sua definição heróica e mítica.
Esta exposição pretende reunir pela primeira vez, um conjunto de informações iconográficas sobre a figura de D. Afonso Henriques, que desejam interferir com as imagens já fixadas e exercer novos pontos de contacto e de entendimento sobre cada um dos objectos seleccionados para a integrar. Deseja-se incentivar uma visão multidisciplinar sobre a diversidade do material recolhido e promover diálogos entre cada um dos núcleos temáticos apresentados. A quantidade e multiplicidade de apropriações levadas a efeito sobre este Rei, circunscrevem esta exposição a uma pequena amostra de tudo aquilo que foi produzido e divulgado nos últimos 600 anos, não podendo nunca ser considerada como uma representação final e definitiva de toda a sua carga simbólica e icónica, propondo como tal uma viagem possível, de entre tantas outras que se poderiam empreender.
Através da apresentação dos inúmeros objectos/documentos expostos, desejamos possibilitar o estabelecimento de relações e proporcionar um olhar aberto e susceptível de continuação futura, através de novas formas de organização e de estruturação expositivas. Este momento significante, determinado pela arquitectura da exposição, que se orienta em sete grandes núcleos temáticos – O Rosto do Rei; A Espada do Rei; A Estátua de Soares dos Reis; A Oficialização da Nova Imagem; Estado Novo e a Imagem do Fundador; “D. Afonso Henriques” Marca Registada; Paixões e Afectos –, pretende criar equilíbrios entre os diversos materiais expostos e os momentos mais determinantes da sua história iconográfica. De uma maneira entusiástica e interessada, coleccionadores e vimaranenses colaboraram num processo intensivo de pesquisa, reunindo esforços sem os quais esta exposição nunca teria acontecido. O reconhecimento de que o legado de D. Afonso Henriques é edificado por pessoas e por todas as manipulações e apropriações por elas operadas durante séculos após a sua morte, estabeleceu os princípios essenciais da construção deste espaço de representação útil. Entende-se por útil a possibilidade de podermos contribuir com qualquer coisa de importante para os outros. A quantidade de objectos/documentos aqui expostos ampliam o campo da utilidade atrás referido, aumentando as relações informais na sociedade e enriquecendo assim as organizações comunitárias, através do fortalecimento de elos de ligação entre indivíduos.
Pode também considerar-se que esta exposição está cheia de sentido social, na medida em que nos diversos materiais expostos se detecta uma consciência partilhada, uma criação de laços com o outro. O rito é o dispositivo espacial, temporal, intelectual e sensorial passível de reforçar e de lembrar esses laços. Sendo uma actividade eminentemente social, a exposição de D. Afonso Henriques pode consolidar os laços simbólicos de reconhecimento mútuo, tal como se verifica nos processos de ritualização.
As histórias narradas pelos materiais só adquirem sentido quando circunscritas a uma escala nacional, e neste caso também local. Esta exposição é um momento de construção de espaço plural e aberto, lugar onde a esfera pública se pode exprimir. A estrutura deste espaço torna-o na sua própria finalidade.
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