Consideremos a arte como algo proveniente de um contexto muito particular, cuja afirmação depende de um movimento de transcendência da sua origem histórica, incarnando uma linguagem universal e introduzindo em si própria níveis de leitura que tornam a obra passível de redescoberta e de reinvenção em cada nova época. Neste sentido, identificar a pintura, distingui-la das demais formas de materialização da imagem e sinalizar um espaço a ocupar na actualidade, exige a compreensão do seu presente contexto de emanação. A partir desta análise, interrogamo-nos se ela disporá hoje, dos mecanismos de sobrevivência e de desenvolvimento que lhe permitam romper com o particular e passar a ser experimentada de forma universal. A pergunta fundamental será portanto, esta: ainda é possível descobrir na pintura processos estéticos de afirmação e de identidade?
No século XVII, o cartesianismo fundou as bases intelectuais da civilização prometaica de felicidade e anunciou uma nova perspectiva de progresso infinito e inexorável para o género humano. Posteriormente, os modernos criaram uma “religião” do progresso como politização do cartesianismo, através da adopção de um programa - uma ideia de caminho indefinido na direcção da felicidade atingível pelo domínio técnico do mundo. Deste paradigma nasce uma espécie de terra prometida que tem no seu horizonte um paraíso acessível a todos - um lugar onde a razão e a acção dos homens tornará possível um grau de satisfação permanente. Estabeleceu-se a ilusão de que a angústia sentida e conhecida desde os tempos mais longínquos desapareceria definitivamente, dando lugar a um estado de bem-estar às nossas vidas, num tempo em que seria possível desenvolver as potencialidades da alma (inteligência, sensibilidade e vontade), elevando-nos a uma era de felicidade completa e de prazer total. O desenvolvimento tecnológico permitiu o aparecimento de potenciais soluções, levantando ao mesmo tempo novas dúvidas e novos problemas. A exploração ilimitada dos recursos disponíveis, cada vez mais escassos no planeta, interfere em tudo o que o homem pode concretizar e põe em causa a intensa actividade produtiva de uma sociedade opulenta, baseada no esbanjamento. Adquirimos assim a consciência de que o programa referido se revelou deficitário porque é incapaz de responder a todas as necessidades. A acumulação sucessiva de pequenos fracassos e o surgimento de novos problemas mostram que o bem-estar prometido continua a ser anunciado ostensivamente como medida salvadora, não se processando de forma automática nem por meio de uma relação directa com o nível de domínio tecnológico alcançado, ao contrário do que nos quiseram fazer acreditar. Neste contexto, podemos apenas sentir pequenos momentos de aligeiramento do sofrimento, espalhado e manifestado de forma diferente. O facto de embelezarmos a vida por breves instantes e de serem poucos os indivíduos a atingirem elevados níveis de satisfação material, disfarça o sentimento de fracasso perante os projectos constantemente adiados do homem contemporâneo, assim como o clima de mal-estar e de insegurança diariamente experimentado e propagado a todas as parcelas da sociedade.
Nesta experiência de insatisfação que nunca nos permitiu encarar o futuro como coisa positiva, começamos a construir e a edificar estruturas complexas, surgidas como processos alternativos de procura da felicidade que teima em não aparecer. Dizia-se que a utilização da razão acabaria por resolver todos os problemas e, apoiados nessa esperança reformista, assente numa ideia de valorização do enriquecimento individual e do crescimento económico do colectivo, simétrica à desvalorização do princípio da redistribuição dos bens, fomos vivendo uma realidade social que recusa admitir o facto de não virmos a este mundo só para produzir, mas também para construir um ser humano equilibrado. No ser humano assim idealizado deverão existir em paralelo outras qualidades como a sensibilidade e a vontade, além da razão. Combatemos de maneira obsessiva, com doses maciças de racionalismo, uma estranha forma de angústia sentida desde o nascimento. Não se nega a necessidade imprescindível da razão para se alcançar uma sociedade justa, solidária e equilibrada. No entanto, a razão não é condição suficiente para se alcançar esses ideais. Quando se concebe um método de resolução de problemas através aplicando a razão nua, sem se considerarem as dimensões da ética e da estética, o indivíduo é levado a agir, amputado de uma parte fundamental dos valores estruturantes, provocando-se assim mais desequilíbrios na sociedade. A fundação da modernidade consistiu na dissociação entre ciência, arte e religião (outrora fundidas), tendo-se privilegiado a inteligência em desfavor da sensibilidade e da vontade. Da razão não derivam automaticamente a ética e a estética e assim sendo, não basta proclamar o razoável para se garantir a sua prática. Este paradigma falha porque assume a razão como um caminho de sentido único, ignorando que a racionalidade é matizada pela sensibilidade e pela vontade, porque estas introduzem outros graus de complexidade e de subjectividade nos comportamentos dos indivíduos, colocando-os numa nova encruzilhada. Existe portanto no ser humano, uma divisão concorrencial de poderes, exigindo um esforço permanente de equilíbrio e descoberta de pontos de fixação efémeros. A tecnologia não atende à sensibilidade mas sim à ponderação de uma eficácia performativa, medida em função de interesses e relações de poder descentrados de um objectivo primordial de desenvolvimento das nossas potencialidades. Temos uma sociedade organizada em estruturas mais próximas da vontade desmedida do que da sensibilidade mensurável e por isso a tecnologia não respeita nem a natureza nem o homem aprisionado na pequena engrenagem da sua roda impessoal alienadora. O racionalismo também não nos concedeu uma ética potente porque por definição, o inconsciente lhe escapa - o homem não é um animal racional: é pelo contrário, o animal ao qual a razão cria graves problemas quando se supõe um substrato instintivo e emocional a que chama subconsciente.
A mitologia e a religião dirigem-se ao subconsciente e os princípios da ética foram elaborados a partir destas duas grandes áreas de construção imaginosa. A razão inventada pelos gregos levou por contraste, ao aparecimento da religião enquanto sistema explicativo dos fenómenos insusceptíveis de compreensão através dos esquemas da racionalidade pura. A religião soçobraria mais tarde ao confrontar-se com a ciência, tendo esta saído vitoriosa relativamente à inteligência, mas tendo fracassado completamente ao afastar-se da sensibilidade e da vontade. Assim, o aparecimento de uma sociedade razoável, isto é, democrática, sem privilégios, justa e solidária, não foi complementada com uma tecnologia humanística nem com uma ética convincente. A razão não introduziu a ética nem a estética na ciência e esta grave situação haveria de dar origem a uma tecnologia anti-estética e desumana. Talvez isto explique o retorno actual a um sentimento de religiosidade e de espiritualidade, num movimento ocorrido em consequência do reconhecimento da incapacidade da ciência para explicar tudo, não conseguindo solucionar a existência de espaços em branco no conhecimento racional. Por outro lado verifica-se uma certa saturação do explicado e um desencanto provocado pela falta de dimensão do misterioso. É tempo de deixarmos de acreditar exclusivamente na razão e de recuperarmos a sensibilidade e a vontade; provavelmente enquanto gesto humano, a pintura representa a continuação de um lastro histórico feito de tentativas para conseguir um qualquer mistério da ordem do sagrado – o desconhecido.
O principal objectivo desta teologia do progresso seria o de impor violentamente um hiato entre a natureza e o homem, criando-se assim uma distinção geradora de um novo espaço de actuação, desligado do meio natural - espaço potenciador de uma adaptação e complexificação da nossa dimensão sensorial e mecânica, totalmente subordinada à racionalidade e a novos contextos formados por estruturas tecnológicas que colocam intermediações e distâncias entre os indivíduos e o mundo físico. A ligação simbiótica entre cultura e natureza ficava interrompida e as inúmeras diferenças encontradas depois deste momento, tornariam possíveis níveis de autonomia e processos de emancipação. No entanto, gerariam desequilíbrios ainda hoje vistos como problemas a resolver. Estes desequilíbrios tornam evidente a precariedade da nossa existência, sob pena de sermos confrontados com um dilema final de sobrevivência, num futuro próximo.
Agrada-nos a ideia de sabermos que toda a acção construtiva e edificante do homem se apresenta como uma projecção, uma visão estética redentora, remetida para a organização interna dos seres vivos. A partir dessa experiência de análise aplicada em nós, construímos novas lógicas explicativas para compreendermos o que nos rodeia. Na origem desta concepção organicista está o lugar central ocupado pela figura humana, até agora em nada prejudicado pelo aparecimento de níveis mais subjectivos e abstractos do pensamento, posteriormente reflectidos na arte. Tudo parece confirmar o aparecimento da arte não figurativa como factor potencializado pela importância da figuração, mantendo o homem como paradigma de uma escala humana, transformada em medida de todas as coisas. A afirmação e a proclamação destes valores conservaram inviolável a distância demarcada do produto artístico sobre todos os outros objectos, apesar de esta separação começar agora a ser posta em causa por uma nova realidade muito mais fugidia, alterando e substituindo a forma como se olham as velhas construções edificadas.
A actualidade revela-nos um ideal de vida, partindo sempre dos pressupostos anteriormente adquiridos pela humanidade e começa a desenvolver outras maneiras de entender a realidade. A falta de capacidade para se estabelecer uma eficaz protecção do património natural face ao progresso e ao desenvolvimento tecnológico e a procura de um bem-estar urbano com equipamentos cada vez mais diversificados, permitem-nos pensar numa reapropriação sensorial, lúdica e convivial do espaço, modificando substancialmente algumas das perspectivas do nosso entendimento do mundo e do próprio racionalismo, responsável por esta imensa actividade construtora.
A dimensão única do sistema baseia-se na utilização solipsista da inteligência tecnológica e no domínio técnico, desenvolvidos sob um princípio utilitarista e este facto tende a conduzi-lo para sua auto-fragilização e para a entropia. Tem-se a consciência de não estarmos a atravessar um momento abrangente e pluridimensional que alie as aspirações humanas a valores da sensitividade e da beleza. Verifica-se ainda a ausência de um elo de ligação entre a memória e o imaginário e continuamos a não conseguir determinar os limites susceptíveis de conterem o estranho processo de satisfação subjectiva, apoiado num individualismo acrítico e consumidor incapaz de estabelecer uma nova ordem universal para o nosso tempo. As contradições daqui resultantes são imensas e fazem-nos desejar viver num ambiente social hiper-protegido, vigiado, securitário e asséptico, habilitado a fazer prosperar as organizações, a evitar a sua exposição a riscos e a impedir processos de individualização dos sujeitos. A repressão permanente dos instintos humanos, o sacrifício e a sublimação, surgem neste contexto algo confuso, como elementos imprescindíveis a uma ideia de bem-estar. As estruturas passam a ser mais ofensivas e interferem cada vez mais no espaço activo dos indivíduos, formando sistemas pós-políticos de dominação que contêm um excedente de repressão. Detecta-se em todos os lugares uma série de estranhas configurações simbólicas já interiorizadas, (as barreiras, os sinais de perigo, os muros, as vedações, os avisos, os cães de guarda e os seguranças como elementos familiares de controlo) como parte de um processo extremo de normalização dos comportamentos, baseado no medo e numa constante representação da ameaça, inconscientemente aceite como meio eficaz de ordenar e proteger as relações sociais. Nenhuma organização contemporânea dispensa estes novos elementos zeladores de uma segurança à escala universal e a emergência de um mundo cada vez mais abstracto e virtual irá fomentar o aparecimento progressivo de outros e diversificados mecanismos de controlo. Surge então um estranho sentimento de medo e de insegurança, confundido com a ideia de se estar sempre ameaçado num mundo organizado em espaços fechados. Neste sentido, a vida está a transformar-se num conjunto de actos permanentemente escrutinados dentro de um pequeno hiperespaço, sujeito a uma vigilância intensiva. A impossibilidade de dispensarmos este sistema global de segurança já instalado e cada vez mais sofisticado nas suas elaborações, transforma-nos num pequeno elo de uma imensa cadeia de mecanismos de controlo tecnológico, actualmente estendidos a todos os lugares do planeta. Abandonou-se uma ideia de sociedade não repressiva cujas relações de dominação tenham desaparecido e os instintos sejam sublimados, tal como acontece na criação artística, minimizando-se os riscos sobre o nosso corpo. Resistir às alterações apontadas pela arte significa prescindirmos da reconfiguração da organização do trabalho, viabilizando uma nova civilização menos restritiva, mais próxima do modelo estético do que do método esclavagista do princípio de realidade, baseado na produtividade.

A arte confronta-se hoje com um contexto marcado pela proliferação de novos produtos multimédia. O ciberespaço e tecnologias de informação e de comunicação começaram a criar um modelo de conforto radicalmente estranho às sensações resultantes de um processo de transformação da realidade, na qual o corpo e a natureza foram dispensados, gerando assim um novo tipo de conhecimento. O ambiente virtual, a operacionalidade de todo o tipo de trocas e a interactividade comunicacional, abrem uma nova era da imaterialidade digital: as imagens e as acções dos homens já não se centram na eliminação dos esforços desagradáveis, mas sobretudo naquilo que pode favorecer a segurança da comunicação, a instantaneidade das trocas e a qualidade da emissão e da recepção das mensagens. Aparece uma nova relação entre as pessoas, identificada pela abundância informacional das interacções virtuais. As imagens e as palavras fazem parte de um estado de acessibilidade permanente em tudo o que é possível ser comunicado e até ver, aparentemente ilimitado nos seus conteúdos. As novas tecnologias instituem um novo tipo de relação social, fundada sobre um elemento imaterial: a informação. Neste novo contexto, a dimensão física do corpo-máquina e do homem das sensações torna-se obsoleta, emergindo daí o homem em comunicação - uma pessoa ligada em rede, um ser interconectado numa cartografia puramente cognitiva e informacional, podendo ser contactado em qualquer lugar e a qualquer momento. Cada vez mais circulam produtos sob a forma de bits e não sob a forma de produtos manufacturados. O prazer de sentir as coisas assemelha-se a um estado de embriaguez de telecomunicações e abundância digital. O modelo conforto-repouso dá lugar ao modelo bem-estar-ligação ou mais propriamente à conectividade global, proporcionando a todas os utilizadores a satisfação de já não se sentirem isolados do mundo e de estarem em permanente ligação com o exterior, num estado de acesso imediato e ilimitado à informação, às imagens, à música. O ciberespaço cria pois, um novo tipo de imagens fomentadoras de uma realidade espacial de um outro género, incentivando um processo de rivalidade entre as antigas e as novas experiências sensoriais, passíveis de atraírem ainda mais a nossa atenção. Este mecanismo reorganizador das ideias caracteriza-se por ter simultaneamente traços hiperprivados e hiperpúblicos, - dois lados de um mesmo território consideravelmente alargado nas suas elaborações possíveis - influenciando de uma maneira mais activa o modo como passamos a olhar as coisas. Em consequência, o espaço encontrado disponível em rede pode ser utilizado por cada uma das pessoas, ligada de uma forma personalizada e individualista. As múltiplas aplicações deste estado permanente de ligação tanto nos podem surgir num contexto subjectivo (privado), como num espaço colectivo (público), onde todas as situações se assemelham e coexistem num único tempo que ignora atrasos e demoras.
A pintura tem de existir então, num contexto marcado de forma decisiva por quatro factores essenciais que acima tentou identificar e descrever: um desequilíbrio entre por um lado, a racionalidade e a sensibilidade e a vontade - esta situação conduz a uma predominância perigosa da tecnologia sobre a ética e a estética; um hiato entre a natureza e o homem; a incapacidade da ciência em fornecer as explicações necessárias à compreensão do mundo; a existência de uma sociedade pós-política, cuja mobilização colectiva é induzida apenas pelo medo e pela insegurança; por último, a emergência do homem em comunicação permanente, numa interconectividade globalizante e em rede virtual e imaterial onde a imagem prolifera. Em função destas condicionantes, a pintura tem de desenvolver os seus mecanismos de sobrevivência e os seus processos de afirmação e de formação de identidade.
O exercício de compreensão e descodificação da pintura de Manuel Caeiro suscita todas estas questões. No entanto, a discussão remete de novo para um nível abstracto e para a especificidade da obra deste artista, configurada enquanto chave de leitura que nos dará acesso a uma interpretação de alcance mais vasto, dos sentidos encerrados no seu interior.
O trabalho de Manuel Caeiro deve ser enquadrado no contexto da nova realidade atrás descrita. A circulação das imagens e a concorrência entre elas criam um clima de agressão iminente sobre os olhares e os sentimentos. Ao adoptarem-se materiais ligeiros e visões naturais, circunscritas a aparatos desmontáveis e fáceis de deslocar, estabelece-se um conjunto de combinações por módulos que se prestam a diferentes elaborações formais. Persiste uma ideia de estruturação assente num espaço construído e extremamente humano, observável através das projecções do nosso corpo sobre as estruturas modulares expostas. As pinturas conjugam várias disposições entre planos só aparentemente impessoais, porque a possibilidade de nelas projectarmos o nosso corpo, assumido como uma medida padrão, é capaz de redimensionar as suas configurações e de inculcar um sentimento emotivo nas relações estabelecidas entre a obra e o observador. A disposição dos vários elementos no interior de cada trabalho provoca, através do nosso olhar, a sensação de conquistarmos sucessivamente mais espaço. A informação contida nas imagens das obras de Manuel Caeiro privilegia uma espécie de anti-excesso, fundador de uma nova ordem ainda fechada em si própria, cujo acesso nos está vedado e é traduzida pelo funcionalismo asséptico, apresentado nas várias estruturações nelas inscritas. Persiste, de um modo sempre incompleto, uma imagem sugestiva que se vai organizando e planificando sobre um fundo branco. Esta imagem compõe assim, uma espécie de transparência no branco – luz indutora de uma forma subliminar, vendo o que não está lá e entrando pela pintura configurada, como um espaço por preencher, aberto à imaginação e à nossa capacidade de construção no vazio. Na pintura existem muitas estruturações formais, transmitindo-se uma ideia de meio desprovido de elementos identificativos, impossibilitando-nos de receber coordenadas sobre a sua localização. Quando se opta por enfatizar o ligeiro, a mobilidade e a adaptabilidade das formas, fomentam-se automaticamente processos de associação funcional entre os elementos dispostos e mecanismos geradores de mais sentidos. A obra de Manuel Caeiro exprime-se por meio de uma poética da geometria que apela ao nosso lado mais profundamente racional e nesse sentido, faz a apologia de um processo de depuração de símbolos.
A versatilidade da estratégia lúdica utilizada em cada trabalho convida a salvaguardarmos uma atitude nómada na forma como o percepcionamos e depois reflecte-se na estruturação imaginosa do relacionamento das formas, num universo plural de interpretações dos elementos nele contidos. Somos levados a observar todas as construções elaboradas como se tivessem uma dimensão sensorial e isto cria a impressão de um bem-estar e de uma sensação de prazer, oriundos do facto de nelas nos situarmos e com ela nos fundirmos intimamente, utilizando a escala do nosso corpo. Existe um deslocamento da utilização da forma visual para uma outra realidade muito mais sensitiva. As obras não se limitam a funcionar eficazmente como imagens construídas que albergam uma finalidade geométrica própria; devem pelo contrário, despertar os sentidos, estabelecer com eles uma relação de prazer, adquirindo uma qualidade táctil capaz de desencadear uma experiência sensitiva e emocional.
Depois de um período histórico ao longo do qual desenvolveram abordagens, cuja função estética sugeria um trabalho frio, unidimensional e compartimentado num mundo demasiado certo e seguro, a arte e a pintura surgem agora num contexto formado por uma outra realidade. Hoje a dimensão estratégica é muito mais abrangente e depende da impossibilidade de se ter uma visão global sobre a mutação das ideias e sobre as suas formas mais expressivas. Passou-se a investir em sensações mais corporais e na satisfação das necessidades dos sentidos. Aparentemente, quanto mais subjectivamos as nossas vidas, tanto mais nos afastamos de uma ideia de preocupação técnica que imponha ao exterior as suas criações de maneira unilateral. Actualmente vive-se um momento difícil, um tempo múltiplo que retoma com dificuldade e insegurança uma ideia de centralidade para o ser humano, como se este fosse ainda capaz de dar resposta às grandes expectativas da vida. Abrindo-se a um espaço cada vez mais virtual e digital, a pintura de Manuel Caeiro desenvolve as suas formas a partir desta espécie de fronteira - um limbo passível de sobreviver ao avanço da imaterialidade onde concretiza os seus movimentos estéticos. A obra deste artista existe portanto, no interior de um território formado por uma superfície de expressão dualista. O mapeamento desta nova realidade exige um esforço de síntese, reflectido no anacronismo das cisões entre o homem e a natureza, a racionalidade e a sensibilidade, sinalizando simultaneamente um canal de espectro múltiplo, onde co-existem a cultura da irrealidade e do digital e a vontade de se intensificar o desenvolvimento da aptidão pessoal para se sentir a textura sensorial das coisas, através do uso do gosto e da procura de uma sensualidade inscrita nas formas e nos materiais.
O ambiente cognitivo e ideológico em que vivemos, fundado em torno de uma fé inabalável no progresso e na racionalidade tecnicista da ciência, parece sugerir um eterno retorno ao mesmo espírito intransigente, surgido através do design da Bauhaus. No entanto, se naquele tempo as formas criadas exprimiam uma cultura glorificadora do depuramento formal, a eficácia pura, a razão conquistadora e a vitória sobre as forças arcaicas do passado, no momento presente nenhuma destas situações se verifica. Vive-se um tempo marcado pelo esgotamento da idolatria da História e tudo se deseja não revolucionário, protector e apaziguador. Neste momento não temos de combater nem os elementos herdados de uma cultura tradicional limitativa, nem de erigir os símbolos triunfais de uma modernidade que se julgava salvadora. Apenas acalentamos o desejo de criar ambientes acolhedores e reconfortantes que sobrevivam dentro de uma atmosfera capaz de conciliar em vez de dividir, incluir em vez de rejeitar e pacificar em vez de enfrentar. Neste sentido, a obra deve ser a expressão de uma reconciliação com a sua funcionalidade mais utilitária, uma mensagem-testemunho da importância da vivência emocional das pessoas, participando assim na resolução dos grandes problemas existenciais do homem contemporâneo. A pintura já não pode ser um hino à racionalidade construtivista ou mecanicista; pelo contrário, deve assumir um saber integrado na satisfação sensitiva dos indivíduos que, dependentes das suas necessidades mais humanas, adquirem novos graus de sobrevivência e se implicam activamente na criação de uma realidade com rosto humano, mais apropriável e por isso mais habitável. |