Depois de termos visto as peças vídeo/cinematográficas que compõem esta exposição perguntamo-nos sobre qual será, em abstracto, a melhor via para realizarmos uma dissensão crÍtica sobre a arte no mundo hipercultural onde vivemos. Nestes filmes, que se projectam como uma espécie de vingança sobre tudo o que modificou o peso e o significado da arte, podemos encontrar a sugestão de múltiplas respostas para esta questão. Não sabemos ainda exactamente qual foi a cronologia dos acontecimentos: se foram os confrontos múltiplos no interior do sistema artístico, cada vez mais valorizado e transformado numa parte fundamental do mercado, que precederam o desenvolvimento extraordinário da sua dimensão económica ou se, pelo contrário, este, por se ter transformado num processo cada vez mais politizado, se anexou voluntariamente na ordem mercantil instituída, tomando-se parte numa verdadeira economia cultural transnacional. A descoberta das respostas definitivas a este problema revela-se, no entanto, inconsequente, dado que a ordem dos seus factores não se organiza sequencialmente no tempo e porque o capitalismo conseguiu, neste processo, neutralizar as fronteiras simbólicas que hierarquizavam a alta e a baixa cultura, a arte e o comercial, o espírito e o divertimento.
As obras de Gabriel Abrantes aparecem num momento em que poderíamos sentirmo-nos tentados a aceitar acriticamente esta situação de desgaste e desfasamento do discurso inconformista que é absorvido pelas lógicas vigentes do sistema na exacta proporção da sua radicalidade. O seu discurso artístico, sendo dotado de uma enorme mobilidade e descomprometimento a todos os níveis, constitui, assim, uma tentativa incessante de busca identitária entre particularismos e manifesta uma exigência, uma quase urgência, de sobreviver num mundo global que necessariamente alterou, sem orientações definidas ou sequer constantes, as relações entre cultura e politica. A desorientação que sentimos perante a velocidade vertiginosa da mudança no mundo contemporâneo coloca-nos em face de uma ameaça de colapso das referências que nos constroem e nos definem. A arte, não sendo impermeável a estes fenómenos, deixa de ser um lugar subalterno relativamente às relações sociais de produção e consumo. Detecta-se uma forte politização na ordem económica e um grau mínimo de comprometimento nas relações com o Estado. Hoje, por causa das pressões ocasionadas pelo aumento das reivindicações particularistas, bem como pela dinâmica própria do individualismo, a cultura tornou-se num ponto central de conflitualidade e um novo factor de divisão. Os afrontamentos existem não só nas esferas do cultural e do económico, confirmando um extenso processo de fragmentação social de um novo tipo, acompanhado de exigências de reconhecimento da diversidade no espaço público e situações problemáticas acerca da moral colectiva. As afirmações dos direitos identitários das minorias, os modos de socialização, o novo mal estar civilizacional, a desestruturação das personalidades, a fragilização e os choques intrapsíquicos, desenham novas divisões e configuram novos pontos de tensão termodinâmica que vão muito para além do religioso e que dizem respeito ao domínio cultural na sua totalidade, embora se caracterizem pela sua natureza intrinsecamente parcelar e fragmentária, obstando dessa forma à constituição de uma mundivisão compreensiva da contemporaneidade.
Numa época que se define pela inexistência de contramodelos – todos os modelos são paralelos e não concorrenciais – interrogamo-nos sobre como podemos realizar uma critica das constantes redefinições, reestruturações e invasões pelas lógicas de concorrência e competição que determinam a obtenção de resultados e que se tem imposto como uma matriz exclusiva da nosso universo social. Até os artistas que, segundo o ponto de vista romântico eram admirados pelos seus talentos e capacidades de fazer, sendo considerados opostos a qualquer sistema instalado, são agora olhados como indivíduos que não levantam reservas à integração das suas actividades nas estruturas económicas vigentes.

As imagens de Gabriel Abrantes condensam um conflito entre a banalidade do discurso e a gravidade do gesto e do comportamento, reflexos de um desejo de ascensão e transcendência que no final é traído por uma falência dos princípios e da moral. Estamos assim perante um jogo de representações apologéticas da redenção, aproximando-nos da dimensão sagrada do porvir e subliminar da arte que nos pode reiniciar numa nova busca simbólica sobre os valores e os princípios da aprendizagem que a realidade onde vivemos parece querer negar. Encontramos uma sensação anunciadora da catástrofe, sobre algo que está para acontecer, sobre o princípio/fim, que leva as pessoas a sentirem-se perto de um momento impossível de controlar nas suas consequências futuras. Os diálogos de suporte que orientam as personagens, aparentemente descarnados do sentido, não tem uma pertença definitiva ao lugar onde se situam, e as palavras não comprometem individualmente quem as profere, usando cada personagem o texto universal que se encontra por cima de cada um de nós e que, neste sentido, passou a adquirir nessa conjuntura de catástrofe eminente uma carga profética e sagrada nas suas significações – como se soubesse que será através do desenvolvimento do que é particular que qualquer criação atinge o universal. A felicidade que todos procuram encontrar supõe uma maravilhosa confiança na perfeição do homem, na sua capacidade de se libertar da eterna repetição da infelicidade, na sua demanda por um mundo novo e melhor. Este estado de aparente esperança apoia-se numa dupla recusa, da salvação e do sublime, e escolhe uma ideia de felicidade – preferimos ser felizes a ser sublimes ou salvos. Existe nos argumentos utilizados uma imponderabilidade semântica que resulta da fragmentação e sobreposição dos discursos, em partes avulsas e ambivalentes, que se projectam numa estruturação calculada de previsão e antecipação do desastre, pensado como a outra e tumultuosa, quase sacrificial, face do progresso. Na transfiguração das narrativas detectamos esses movimentos de desapego e de triunfo do conforto, um corpo transformado em nosso fiel receptáculo sobre a terra, que urge tratar, envolver e cuidar quando a sua salvação obriga à submissão ao divino, ao seu desprezo e ao esquecimento. As dores do corpo não são consolações para o além, mas antes uma condição para a melhoria do mundo. A ideia de progresso supera a eternidade e o futuro já não pode ser o refúgio da esperança, local de reconciliação entre os homens. A partir da Renascença muda a forma como percebemos a existência e, apesar dos progressos materiais e técnicos, o mundo continua desprovido de lugar, de um jardim fértil onde possamos encontrar um olhar benevolente e que nos permita a reabilitação do instinto como uma conquista do agradável. Ao perder a relação objectiva com o lugar donde partem, as personagens e os espaços observados surgem-nos, de uma forma crua e limpa, como os cenários nos quais a acção justa será sempre associada ao prazer e a acção injusta ao sofrimento. Os interpretes são imagens sem elaborações teatrais, provenientes dos mais diversos lugares do planeta, num tempo e lugar instantâneo de acontecimentos e de referencias históricas, questionando-nos sobre o ponto de encontro ou de desencontro global, onde se desenrolam todas as histórias presentes e como se todos nós nos encontrássemos num espaço aberto ou fechado no qual as pessoas, sem estarem sujeitas a percepções e racionalizações do seu relacionamento sócio/geográfico, são postas em confronto com as suas próprias raízes culturais e proveniências. As paisagens são um elo importante para uma geografia que está prestes a ser contaminada por um desejo consumista apátrida que se impõe nas formas degradadas de construção estranha do trabalho do homem. O conjunto de acções que compõem estas peças apontam um desfasamento persistente e insolúvel detectado no lado mais insólito dos nossos actos e na insidiosa força das formas de viver suburbanas. Vivemos um tempo de impotência existencial num território onde não se pode escapar da felicidade do bem-estar sem escolha, determinado por um avassalador e acelerado processo de desenvolvimento e progresso. Faz-se, assim um cinema que se nos apresenta um mundo em extinção/alteração sobre o qual se intui uma existência humana ritualista, na preparação de um acontecimento final e fundador que por isso mesmo será sempre um momento trágico/sagrado.
Esta exposição de Gabriel Abrantes fecha um ciclo de cinco anos de actividade do Centro Cultural Vila Flor no domínio da arte contemporânea. Quisemos, de alguma forma, com a escolha deste artista, enfatizar a criação artística através de suportes dotados de uma certa imaterialidade, como o vídeo, e da apresentação de documentos preparatórios das obras em si, algo que se pode considerar ser o ponto de chegada de um percurso que teve sempre a preocupação de diversificar abordagens e contextos de criação. Considerando que existe uma grande carga simbólica na ideia de fim de ciclo e que dele podem surgir múltiplas interpretações, foi nossa intenção também a de dar a conhecer a um artista que está justamente em contra-ciclo, no início da sua carreira, e cuja obra se define em, grande medida, por uma pulsão e uma energia primordiais na qual não podemos de deixar de reconhecer um carácter iniciático e uma vontade de se oferecer ao mundo – algo que partilhamos e que, da nossa parte, apesar do simbolismo da data, não encerramos por aqui.
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