A capacidade de conceptualizar o mundo e o poder de construção que essa competência nos proporciona constituem momentos decisivos de sobrevivência da arte face às inúmeras imposições biológicas inelutáveis a que sempre estivemos no passado, e continuamos no presente, a estar sujeitos e das quais não podemos escapar – isto é, frente ao esquecimento imediato daquilo que fazemos e frente à morte que se aproxima rapidamente de cada um de nós. Foi graças a esta potencialidade de criação, assente numa sensibilidade anti-verbal (na medida em que não depende directamente da linguagem), que pudemos ser capazes de imaginar proposições contrafactuais que ampliaram a nossa mente, dotando-nos de meios capazes de resolver os problemas da existência, fornecendo-nos armas que nos permitiram lutar eficazmente contra a extinção da espécie.
Desta experiência primordial do homem perante uma natureza hostil e implacável, assumindo este confronto um impressionante grau de violência, passamos para um momento que nos fez acreditar que iríamos viver um outro tempo, assinalado por muitos como mais humano e civilizado, Descobrimos, através da ciência e da tecnologia, outros meios de sobrevivência e encontrámos novos processos de prolongar no tempo a vida de cada pessoa, pressupondo esta passagem a elaboração de uma ideia de futuro, enraizada no homem como uma forma de construção cultural, como o momento a partir do qual começamos a pensar que utilizando a razão seremos capazes de controlar a alteridade do meio natural e fazendo surgir em nós uma estranha aspiração de domínio sobre toda a natureza, agora reconvertida numa entidade sujeita e submetida às capacidades e conhecimentos humanos entretanto adquiridos. O individuo que se formou a partir desta mudança teria tudo para ser um criador de suposições e um experimentador de pensamentos, dotado de uma imaginação que iria aperfeiçoar as suas ferramentas cognitivas especializadas, permitindo que ele fosse capaz de separar o mundo real do mundo do faz-de-conta. Infelizmente esse homem convenceu-se de que seria capaz de atingir uma elevada sofisticação de mecanismos de separação racional que isola os mundos reais dos mundos falsos e, neste sentido, que seria possível construir uma sociedade/lugar perfeita onde ele nunca teria ido sem ter passado por uma espécie de sedução da consciência, um fenómeno que se verifica quando nos enfrentamos com uma obra de arte. Desta forma, a incapacidade de conhecer as dimensões do real e do irreal vão sucessivamente agudizar-se à medida que o domínio sobre a natureza se vai acentuando. O grande problema da arte é, actualmente, um reflexo deste estado de coisas: o facto de estar inserido num sistema que necessita de se alimentar a si próprio permanentemente de forma a sobreviver e que cria neste processo simulacros e realidades falsas e ficcionadas (da ordem do económico e do financeiro) que desvirtuam a sua essência. Assim sendo, e afastada a possibilidade de estabelecermos uma fronteira entre realidades, vivemos a partir desse momento uma ficção alargada sobre a vida humana na qual a descoberta de uma verdade universalmente desejada terá necessariamente de passar pela detecção de erros não intencionais ou então pela propagação insidiosa de mentiras programadas. A arte sobrevive neste mundo, onde se gastam enormes quantidades de tempo e de recursos na criação e experimentação de fantasias e ficções, pela mera exploração do fascínio natural do homem por estas duas dimensões, tornando esta propensão num vício virtual. Para conseguir fazer durar este estado de empolgamento alienante somos diariamente bombardeados por todos o tipo de produtos pré-formatados e de performances dramáticas ficcionais.

A obra de Pedro Sousa Vieira surge numa espécie de contra-ciclo em relação a este vertiginoso fluxo de informação e de mercadorias em que se transformou o sistema altamente mediatizado e espectacularizado da arte. Não sabemos se ainda haverá por muito mais tempo e espaço para se realizarem observações das imagens plásticas reflectidas nos trabalhos de pintura ou desenhos sobre papel, estados primordiais de observação e de paixão pela arte através dos quais apreciamos o belo e desta forma respondemos àquilo que Kant chama apresentação do objecto – como o vemos ou ouvimos no nossa imaginação, como este chega até nós no teatro da mente. Este processo de apreensão da experiência artística supõe um outro regime de tempo e uma outra respiração da obra que não são compatíveis com a multidimensionalidade da era do virtual e da simulação.
O mundo está cheio de simplificações utilitárias, inúteis e, nalguns casos, excessivamente mercantilistas que determinam o ressurgimento constante de muitas formas de actuação populista de aquisição de produtos culturais e que têm vindo a ser utilizadas nas várias doutrinas/expedientes de salvação adoptadas pelas pessoas que actuam no meio artístico. As retóricas correntes visam apenas justificar o mercado como um momento injustificável de um sistema que insiste perpetuar-se através da compra e venda de objectos, acompanhando a decadência e o declínio das sociedades contemporâneas. Se adoptássemos uma tese de pendor “darwinista” e tentássemos explicar a falta de convivência e o isolamento individualista como se pela obrigação de vivermos um mundo separado por barreiras alfandegarias do saber estético, estaríamos num estado inumano de uma aparente inevitabilidade justificadora que racionalmente nos impediria de imaginar todo o tipo de cenários/mudanças e de situações/alterações situadas além da consciência directa das coisas. Neste sentido a arte tem assumido, no presente, um papel transformador não radical. Actua sobre um campo imenso de material sociológico, está sempre pronta a ocupar o espaço disponível de acumulação, transformando as imagens em mais “olhares”. Cada obra transmite-nos um “olhar” e quando esse olhar já advém de um outro olhar, como acontece quando observamos imagens produzidas pelas múltiplas técnicas avançadas de reprodução e de comunicação, o seu conteúdo passa a ser assunto/noticia, um acto que divulga e propaga o vazio do tempo despendido nessas operações de transmissão. E o que encontramos disseminadas por toda a parte são meras fantasmagorias, actos alegóricos, obras de arte desvitalizadas, produtos/lixo expostos em cuidadas organizações de material produzido para o olhar mais banal. Estes produtos já não ambicionam estabelecer qualquer tipo de ordem ou de ligações sobre um contexto que antigamente era olhado como caos à espera de ser organizado. Tudo se perde num novelo imenso de relações apressadas e na urgência dos negócios e transacções. Esta incapacidade de pressentir o universal criou um mundo cheio de segmentações, parcelas que não são susceptíveis de serem associadas e reconstruídas num todo minimamente compreensível, sendo este o momento onde tudo o que resta e que não se sabe o que é pertence ao arquivo de um tempo chamado passado. O contexto onde as coisas hoje se passam está muito alterado, houve mudanças e rupturas profundas nas visões universais do mundo, construídas sobre uma realidade que foi olhada no passado de uma forma monolítica e unilateral, inserida numa noção regular e monopolista do tempo, que nos permitiu compreendê-lo como história. Hoje, sobram-nos apenas fragmentos desse tempo. O passado alterou-se, deslocando as coordenadas actuais do nosso entendimento. Nesse sentido, a estratégia, continuamente utilizada por Pedro Sousa Vieira, da citação e da transformação da imagem, da sua recriação a partir do lastro que lhe sobrevive, tornou-se, sabendo nós que estamos perante a impossibilidade da irrupção de algo novo ou sequer da construção propositiva de uma obra, tragicamente conscientes de que tudo são margens e notas de rodapé da história, uma prática artística incontornável de descodificação do mundo e do nosso tempo. |