Há uns anos atrás comprei o livro Austerlitz, de W.G. Sebald. Procedi da maneira habitual: dirigi-me a uma livraria, escolhi o livro, paguei-o ao balcão e voltei para casa. Li-o durante alguns dias e, chegado ao fim, fui confrontado com a inscrição manuscrita, na última página, de uma assinatura praticamente ilegível, uma forma alongada e feita num só gesto, de tal forma que não me foi possível concluir da sua origem nem autoria. Este símbolo estranho aparece-me sempre que volto a pegar no livro, folheando-o ao acaso numa procura ausente de atenção sobre uns tantos pormenores da história que me escaparam na primeira leitura. Aquela obra tem, assim, para mim uma dupla marca: a estrutura do discurso literário propriamente dito e aquele desenho, marca, signo que nos obriga a sentir a impossibilidade de ocultarmos os nossos conteúdos de consciência no foro íntimo de cada um, sem os deixarmos transbordar para os objectos que nos são exteriores. As primeiras dúvidas surgem-nos quando tentamos descodificar um nome que, à primeira vista, nos parece facilmente legível, mas que, depois, tal como aquela assinatura, e após algumas tentativas, se subdivide noutras tantas formas possíveis de denominação, provando-se que na nossa consciência há muito mais informação do que aquela que pensamos existir. Essa capacidade de desdobrar um conhecimento, mesmo a partir de uma dúvida, diz-nos que certas estruturas do saber não seriam susceptíveis de se multiplicarem num amplo processo de expansão se a nossa consciência fosse um mero espelho objectivo do que observamos. Um pequeno estímulo como o de uma assinatura encontrada ao acaso num final de um livro, um momento captado como uma singularidade que contraria o decorrer normal dos factos rotineiros do dia-a-dia, adquire uma carga subjectiva que vai crescendo, transformando-se gradualmente num signo atípico, um código desconhecido e, portanto, fechado à interpretação comum. Quando temos à nossa frente algo que não podemos entender concluímos que a nossa percepção é mais vasta do que aquilo que pensamos estar nela contido, que ela consegue preencher o hiato com que é confrontada, deduzindo soluções de continuidade, estabelecendo ligações entre momentos separados, impostos do exterior de uma forma não autoritária. Neste sentido, formulamos um jogo de hipóteses e realizamos uma operação racional com estados de consciência que possuem um certo conteúdo, sem saber, no entanto, se esses conteúdos são ou não verdadeiros. A partir deste momento, percebese como as assinaturas de um documento, de um desenho ou de uma obra, não vão além de uma marca manuscrita, uma tentativa de personalizar um objecto criado para ter vida própria fora do contexto onde foi imaginado e concretizado, informando-nos da intenção de se dar por concluído cada momento nele contido. Percebe-se também que alguém desejou e sentiu ter de acrescentar alguma coisa sobre esse ponto final e que, ao colocar a sua assinatura, deu por suspenso aquilo que estava a fazer.
Nos trabalhos de Hugo Canoilas sentimos uma indiferença perante a autoria e a utilidade de se proceder a uma assinatura final sobre o seu trabalho, que nos surge interligado numa continuidade circular e em expansão, detectando-se mais facilmente o gesto inaugural da sua origem do que o último momento da sua definitiva conclusão. Parece existir na sua obra uma recusa latente do derradeiro gesto convencionado pela prática artística, que sinaliza a conclusão de uma obra de arte e a assunção de "uma autoridade ao contrário", preocupada em impor a não imposição desse final a todos os que se encontram no seu exterior e esperam sentir esse sinal. Esta espécie de suspensão sugere-nos a necessidade premente do artista em fazer tábua rasa do seu passado, mesmo do seu passado recente, e retomar em cada início de uma nova obra o limite terminal da obra anterior.


Há, assim, um momento presente de que ele não abdica e que se eterniza, renovando-se insistentemente através do crivo do exame crítico a que ele próprio se sujeita, no derradeiro esforço de uma busca de verdade situada na certeza absoluta da presença de si perante si mesmo. Cada trabalho valerá tanto pelo seu início como pelo seu fim: ele é um espaço entre espaços. O seu tempo de execução transporta uma atenção rigorosa e consciente sobre todas as suas opiniões, crenças, preconceitos e tendências, afastando-se delas para se esvaziar logo a seguir, preparando a partir desse nada um momento fundador que se impõe como um despojamento do sujeito na sua relação consigo mesmo. Ele reivindica a urgência de uma luta contra a tendência para estabelecermos um nexo de casualidade sobre as coisas que vemos, atribuindo-lhes uma ordem. Evitar a influência que essa relação de causa e efeito produz em nós pressupõe estabelecer uma distância sobre um sentimento de destino que parece determinar a sequência dos trabalhos apresentados, permitindo que as ligações críticas reveladas se enquadrem numa subida para um patamar humanista sentido na reivindicação de autenticidade. A voz do artista é uma voz que ordena a proibição da ordem e que não tem nada para dizer. Esta reclamação de autenticidade encontra numerosos equivalentes no campo cultural, circunscrita no fim das distinções entre cultura erudita e cultura popular, subentendida na recusa de uma autoridade exterior, permitindo a abertura de um espaço de libertação pessoal expresso na presença perante si mesmo e na procura de uma harmonia totalizadora capaz de integrar todos os elementos espirituais, éticos estéticos…
A obra transforma-se assim num mecanismo indutor de um sentido de inacabamento e de que a falta de um remate é a melhor resposta a ser dada para as questões que insistem na necessidade de um acordo entre quem faz e quem recebe a arte. Responde a esta nossa necessidade de nos sentirmos incluídos no processo artístico através do assentimento e acordo sobre o momento final de cada obra, tornando-se num factor de normalidade e de pacificação que ajuda a resolver os problemas da recepção e assimilação que ela coloca. Ao não se dar sinais objectivos que o seu processo se concluiu, estabelece-se um corte na sequência vertical de uma história que não encontra o seu papel de atribuição de sentido. Sente-se que, quando adquirimos objectos, ficamos na posse de pequenos traços automáticos de elaboração repetida que identificam a sua conclusão e conferem ao trabalho neles produzido uma autenticidade e um sinal de acabamento sobre determinado pelo seu último acto. Possuímos uma assinatura. Pensamos, então, em quais seriam as intenções deste indivíduo que vai construindo as suas obras sobre diferentes formas e conteúdos, que se exprime de um modo desordenado, utilizando de uma maneira descomprometida todo o tipo de materiais e de suportes, deixando-se envolver num processo quase clandestino do agir no qual se compreendem apenas as sucessivas voltas que a sua aparente e intempestiva actividade deixa revelar. Quais seriam então as motivações e as soluções interiores desse mundo do sensível que o artista encarna e terão provocado este conjunto de factos tão invulgares, contidos nos diversos trabalhos que são considerados como levados a efeito?
Imaginamos, então, uma pessoa que vai todos os dias a um atelier, retira um caderno de uma estante, senta-se comodamente num banco e, ao lê-o calmamente durante vários dias, vai inscrevendo pequenas anotações. Quando termina esta operação, assina-o e volta a pô-lo muito naturalmente no mesmo lugar. Finaliza esse acto de criação com um apontamento, acrescentando-lhe um sinal da sua presença, um aviso, uma intromissão. Se pensarmos que tudo isto se passa no mais completo segredo, no interior de um lugar resguardado dos olhares do público, admite-se que poderia tratar-se de um novo mecanismo de subversão contra todas as banalizações do instante da criação, que tem estado, por vezes, sujeito aos mais estúpidos tratamentos mediáticos. Observar o gesto que culmina o limite do fazer artístico pode redundar numa série de banalidades infinitas sugeridas pelo olhar penetrante da retina ou pela captação mecânica da máquina de fotografar ou de filmar. Ao olhar os trabalhos de HC lemos pouco, e cada vez menos, as realidades donde partiram os factos neles circunscritos numa disposição de símbolos e sinais que a linguagem acrescenta a estas realidades indizíveis. São actos em suspensão, sem um desfecho de uma causa ou efeito que claramente definem um desinteresse sobre uma finalidade terminal. São espaços em aberto, dispostos na contingência dos acasos que se lêem como se tivessem de ser recomeçados a todo o momento e que, por isso mesmo, não estruturam compromissos. Ter acesso às obras, lê-las e contaminá-las com o nosso olhar dispensa uma assinatura, um sinal legível que será, neste sentido, uma oportunidade para o artista não agir, insinuando um novo contra-activismo da apropriação sem adquirir propriedade. Como se pudéssemos ir para as livrarias ler livros e, no fim de cada leitura, colocássemos em cada um deles as nossas assinaturas, provocando uma infracção sobre a propriedade de quem vai chegar depois para comprar o objecto que, entretanto, se transformou em coisa do anónimo que o assinou. Quem lê anonimamente numa livraria ou olha individualmente numa exposição coloca uma marca pessoal e indecifrável sobre os objectos ou peças de arte, como se no final de cada uma das suas leituras assinasse um símbolo secreto de posse sobre os livros ou as obras expostas. Este acto inconsciente sugere a actividade furtiva de assassínio vitimando os direitos da cultura, negando o valor da compra e das práticas comerciais de todo o negócio que lhe está subjacente. Quem chegasse depois deste momento totalizador ficaria a saber que outros já por lá tinham estado nele e haviam colocado uma marca, retirando assim a pulsão da aura de cada primeiro olhar que o acto de ler ou de observar arte necessariamente convoca. O gozo não se pode assim revelar naquilo que se sente já ter sido consumido pelo olhar de um outro que dessa maneira deixou a sua marca. Curiosamente, o objecto artístico não será nunca destruído por um sinal colocado numa obra que se apreende pela primeira vez ou que se observa sem restrições, mas sim pela incapacidade de se superar a exclusividade do acto de possuir pelo olhar. O trabalho de HC pode ser o testemunho de um acto refinado de recusa sobre um negócio, que matará positivamente a lógica de propagação do mercado da cultura individualista. Num mundo onde o consumo individualista e hedonista não se distancia do estatuto legítimo do proprietário, e onde se cruzam difusas relações de mercado, esta arte infiltra nele ideias de satisfação e de prazer vividas serenamente, rejeitando noções de posse plena ou de propriedade absoluta. |