Busca permanente
Conhecemos George Steiner através da sua leitura. Os seus livros são sínteses que funcionam como pequenos paradigmas vivenciais, compostos por acontecimentos seguidos de um conjunto de pensamentos a propósito de cada um deles. A partir de uma série de ocorrências que nos surgem como encontros ocasionais do autor com aquilo que o rodeia, ele vai construindo sucessivas criticas que se estruturam em ideias de uma forma muito natural. A partir deste exercício faz-se uma escrita apoiada numa linguagem simplificada e extremamente prática. A obra de George Steiner parece que, com o tempo, se vai tornando em algo despojado de elementos teóricos para se transformar num apanhado de visões mínimas, singulares e humanas sobre um mundo que não propicia pontos de reflexão seguros, nem tomadas de vista interessantes ou abrangentes, numa sociedade cada vez mais irregular e inconstante.
“As ciências da vida são um assunto demasiado sério para ser deixado apenas aos cientistas”. Num panorama cada vez mais destruído pela velocidade das informações e pela violência do choque de muitos momentos instantâneos que nos são comunicados em tempo real para todas as partes do planeta, resta-nos muito pouco tempo de elaboração de respostas. As ciências preocupam-se em resolver problemas parciais, questões centradas em aspectos que dificilmente adquirem uma perspectiva alargada sobre o mundo, não conseguindo ir além do reduzido espaço onde persistem como soluções. Por isso deparamo-nos com uma situação estranha, na qual “somos hóspedes da vida, lançados nela independentemente da nossa inteligência e da nossa vontade. Hoje estamos a tomar sombriamente consciência de que somos hóspedes de um planeta vandalizado”.
Temos cada vez menos tempo para as grandes mudanças e que esse tempo está a ser constantemente destruído por um sistema que faz da comunicação em massa uma justificação consensual para poder tomar todos os tipos de medidas que nada resolvem. Existe uma espécie de venda de opinião, uma acumulação exagerada de comentários que desejam avidamente convencer que se transmitem nos vários meios de comunicação social. O monolitismo das mensagens é por demais evidente. Há um sistema que se serve de um aparelho de tele-vendas, a funcionar em regime diário e omnipresente e que nada mais faz do que adormecer o espaço crítico planetário num simulacro de amplo debate e numa ideia de abrangente discussão. Tudo está a ser trabalhado para que se perpetuem processos de continuidade sobre o instituído e sobre as alterações suscitadas que nos são mais impostas do que desejadas. Desde há algum tempo que perdemos a capacidade de nos distanciar com nossa reflexão da possibilidade de sentir o futuro. George Steiner parece que se insulta a si próprio quando percebe a falta de tempo e de futuro. O tempo actual atira tudo para a vala comum dos actos mundanos, actos efémeros e perdidos que se exibem na vulgaridade de uma história sem conteúdo. Quando ele refere que “o meu comportamento, os meus escritos, o meu ensino foram os de alguém que Aristóteles caracterizaria como um «idiota», o homem que fica em casa, que se recusa a intervir nos assuntos e responsabilidades da cidade”, está a concluir quanto nos afastamos da verdadeira intervenção cívica na cidade/planeta onde vivemos. Depois, ao acrescentar que “embora conceba que essa recusa, esse instalar-se numa situação privada potencia e, em certo sentido, justifica o acesso ao governo, aos cargos públicos, da figura do déspota, do corrupto e do medíocre”, não parece haver muito para fazer uma vez que optando por «ficar em casa» o homem, ou mais recentemente também a mulher, que se recusa a qualquer participação no processo politico é essencialmente um voyeur.
O homem está a refazer a realidade herdada de um mundo biológico e total numa performance das aparências, está a transformar em espectáculo desportivo as forças que, na realidade, moldam boa parte da sua própria existência. “Estritamente falando só o eremita adquiriu o direito a um desprendimento comparável”. Sentimos uma perda enorme de sentido quando nos deixamos cercar por uma passividade que o sistema convida, de forma ostensiva, ao impingir diariamente todas as explicações e respectivas soluções. Sair deste mecanismo regulador é cada vez mais perigoso e correm-se riscos desnecessários sobre a importância de descobrir outras formas de pensar sobre os problemas. O processo de assédio comunicativo generalizado da nossa sociedade contemporânea inclui uma proposta razoável de se evitarem riscos e modelos de pensamento diferentes das veiculadas pelo aparelho do sistema. Convidam-se adesões rápidas e colectivizantes, na formação de grandes públicos, sobre assuntos que não se podem recusar porque a sua negação daria origem à falta de garantia da sua liberdade e da falta de imunidade da sua recusa. “Tanto a democracia como a tirania, cada uma pelos seus motivos próprios consentem a passividade”.
Muitas vezes a história é uma produção da estupidez humana, uma consequência da alienação colectiva, da idiotice e da loucura. Os acontecimentos são promovidos por indivíduos que não sabem o que fazem e que nem sequer querem pensar na possibilidade de virem a saber, porque isso lhe provoca mal-estar e um impulso para a violência. Observa-se como as pessoas se aproximam do abismo, como elas montam as suas armadilhas e como elas próprias vão cair nos artefactos que construíram. Todos dão o laço a corda com que se vão enforcar e como verificam repetida e cautelosamente os nós e os laços para sentirem se são suficientemente fortes para aguentar o seu peso.
Por isso a busca permanente aparece com uma espécie de nomadismo interior, um descomprometimento que nos permite encontrar um espaço aberto e livre de actuação, para aí podermos organizar uma construção sem limites, sem as fronteiras horríveis da vida colectiva que cada vez mais produz violência e destruição.
Palavras recentes
Os mais recentes livros de George Steiner continuam a apresentar uma obra que se movimenta entre distintas formas de olhar e compreender o mundo. “Os livros que não escrevi” constitui uma justificação pública do autor que tenta explicar um silêncio por si aberto sobre uma vontade de escrever que não se concretizou. Os temas abordados são diversos e vão desde o sionismo ao sexo expresso em várias línguas, até ao amor pelos animais, ao exílio e à teologia do vazio. Este livro deseja corrigir uma impossibilidade de comunicar, uma falha sobre a qual Steiner tinha planeado agir e não o fez.
Na sua obra habituamo-nos a ser confrontados com as mais inesperadas relações entre assuntos aparentemente incompatíveis, em ligações difíceis que unem espaços de análise tão díspares e aparentemente tão longínquos. Estas ligações surgem-nos habilmente interligadas, desenvolvidas sobre problemas da nossa actualidade, apresentados de um modo desafiador e premente. Existe em George Steiner um profundo conhecimento generalista sobre todas as formas passadas de sentir o mundo e uma maturidade de análise que persiste de uma maneira simples e bela, por parte de alguém que iniciou uma tarefa de sobrevivência numa sociedade cada vez mais transformada. Manifestando um evidente desprezo por tudo o que se apresenta banal e particularmente repetitivo, as experiências ficcionais do autor editadas nos livros “O Transporte para San Cristobal de A. H.” e “Provas e Três Parábolas” seguem a linha critica habitual, embora pareçam contrariar a tendência inicialmente revelada para o ensaio e para um certo tipo de pensamento que se desenvolve sobre factos existenciais e filosóficos do quotidiano.
Assiste-se a uma quebra alarmante de todos os níveis de cultura e literacia, acompanhada pela produção diária de subclasses de semi-analfabetos cujos vocabulários e competências gramaticais reduzem as suas sensibilidades a aspirações recreativas de uma vulgaridade desoladora. Numa sociedade que vive obcecada pela tentativa de corrigir a injustiça social em acções políticas violentas e que recentemente tem enveredado por um caminho estranho e monolítico de nivelamento por baixo, Steiner convida à rejeição de todos os meios de comunicação social, não só por promoverem impunemente todas as formas de mediocridade, mas por incentivarem a corrupção ao formatarem o populismo como prática utilitarista de uma vida pragmática e bem sucedida. Toda a massificação comunicativa, traduzida nos desvios causados pelas inúmeras inversões de valores, pode estabelecer perigosas alianças que atrofiam o sentido crítico e marginalizam a eminência intelectual como exemplo de uma vida verdadeira do espírito.
Com George Steiner tudo parece culminar numa vida que se dirige inteiramente para a escrita e na qual todas as diminuições de valores estão manifestamente expostas nos seus livros. O autor denuncia, protesta e apela contra todas as formas de “sujeição penitencial aos direitos populares que tornam ilegítimo o reconhecimento assente em barreiras alicerçadas em profundidade que podem separar a maioria dos homens e das mulheres das vias de acesso aos lugares mais altos, àquilo a que Yeats chamava «monumentos de um espírito que não envelhece»”.
Os seus livros continuam a ser conjuntos sábios de palavras que exprimem avisos sérios sobre a decadência e sobre a dissolução das sociedades contemporâneas. A deslocação, o desenraizamento e o abandono exprimem um clima generalizado de desastre e descrédito que tornam a realidade mais evidente. Tudo o que nos é permitido ler nas predições disponíveis da sua obra, são antevisões sobre uma eloquente alienação, uma realidade veiculada nas formas comerciais e oportunistas de compra e venda para uma felicidade como momento entediante. As maneiras modestas e humildes dos sentimentos de culpa são causadas pelos falhanços sociais que se cruzam com a ilusão de uma terra desprovida de angústia, onde cada um fica suspenso no transtorno ou no desastre reconvertido em processo de salvação. Faltam-nos valores e finalidades superiores que incentivem descobertas de um espaço mais íntimo, contrariando o momento da grande exposição mediática e exterior, cada vez mais desprovido de sentido nas suas exibições rotineiras. O que deixamos para trás é uma espécie de silêncio, um ecrã de clichés acompanhado de muitas falhas de comunicação. A seguir à subdivisão da palavra vai desenvolver-se uma nova matriz transmissora composta por pequenas frases incoerentes que se aparentam com uma língua desconhecida, enquanto todos continuamos a saber que “O caminho em direcção à linguagem é o caminho mais longo susceptível de ser pensado”.
George Steiner, Os livros que não escrevi, Lisboa, Gradiva, 2008.
George Steiner, O Transporte para San Cristobal de A. H, Lisboa, Gradiva, 2008.
George Steiner, Provas e Três Parábolas, Lisboa, Gradiva, 2008. |