AUTOR: IVO MARTINS
EDIÇÃO: Guimarães Jazz 2025 - Câmara Municipal de Guimarães/ Associação Cultural Convívio/ A Oficina DATA: Novembro de 2025
No início da sua implementação, a rede foi organizada para ser o mais simpática possível na ótica dos utilizadores e para nos servir de maneira simples, tendo sido construída a partir de elementos binários (bits e bytes) mutuamente interligados, cruzando informações a níveis extremamente complexos e inesperados, concebidos para atingir resultados previsíveis e intuitivos. A ideia era desenvolver um sistema em que as nossas ações ficassem eternamente armazenadas online, numa memória que nos ultrapassava mesmo quando eram eliminadas por cada um de nós. Mais tarde, embora mais cedo do que pensávamos, o poder do digital abriu-se para uma realidade infinita e abismal, algo contrário à nossa natureza e finitude, uma situação que foi permanentemente ampliada por força da intervenção de novos elementos de exploração como, por exemplo, a mais recente inteligência artificial generativa. Estes novos elementos tiram partido de todos os excessos e extravagâncias que manifestamos nas nossas escolhas e são tecnicamente exponenciados, formando novos portfolios de opções, novas alternativas, novas possibilidades de navegação. Isto significa que estes processos já não nos pertencem, uma vez que os nossos comportamentos alimentam a rede e desencadeiam outros comportamentos. Deste modo, o conjunto daquilo que fazemos forma uma galáxia de intervenções que se situa algures num limbo temporal entre o presente, o passado e o futuro, uma realidade desmultiplicada num todo indistinto e incessante que permanentemente se atualiza. Nesse movimento, somos arrastados por ondas imparáveis de desperdício, coisas que sentimos nas vibrações internéticas, um processo que explora tendências, inclinações e propensões das pessoas que gostam de consumir mais do que aquilo que precisam, mantendo desta forma os utilizadores focados na satisfação das suas falsas necessidades, cada vez mais numerosas e descartáveis.
Se fôssemos mais contundentes na nossa análise diríamos que à volta do digital está a ser construído um sistema complexo, numa era estranha de desigualdade extrema, com formas impensáveis de exclusividade que separa os que estão sintonizados dos que não estão. Quando analisamos mais de perto o seu conteúdo no que respeita à música, jazz e a arte, detetamos coisas estranhas como a expropriação das nossas experiências; o sequestro da divisão da aprendizagem; a independência estrutural em relação às pessoas que deveriam servir; a imposição dissimulada da colmeia coletiva; a ascensão de uma forma de poder instrumentalista. A indiferença radical que sustenta esta lógica extrativa – a construção, a propriedade e a manipulação dos meios de modificação do comportamento – justifica a abolição do direito fundamental à proteção da privacidade, gerando como consequência a degradação do estatuto do indivíduo como centro da democracia, dissolvido na insistência no atordoamento psíquico. Entre muitas outras coisas, sentimos que esta estrutura, em grande medida dispensável, se tem mostrado cada vez mais expansionista no sentido da dominação que a lógica neoliberal fazia prever. Face a esta constatação podemos então dizer que a rede se justifica a si própria, da mesma forma que o mercado se justifica a si mesmo; e nós, enquanto atores deste processo, somos elementos secundários num mecanismo, um tanto ou quanto esquizofrénico, de reprodução em série no decurso do qual somos transformados numa equação/síntese de palavras encontradas na combinação utilizadores/consumidores/ouvintes.
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Atualmente, não existe no espaço digital uma linguagem estabilizada e complexa de funcionamento online, algo como um processo universal de comunicação em tempo real. Assim sendo, quando a navegamos não precisamos de prescindir das nossas próprias especificidades, das nossas características individuais, das nossas particularidades idiossincráticas, num contexto que se mostra aparentemente cada vez mais flexível, amovível e interativo. Esta realidade, sendo artificial, é simultaneamente incontrolável e infinita. As traduções de sentido são praticamente instantâneas, e nós estamos apenas no início de um novo paradigma de mediação total, logo mais completa, que, no limite, terá a capacidade de substituir completamente o utilizador. Nestas circunstâncias, o consumidor/ouvinte recorre quase sempre a procedimentos elementares que lhe são requeridos e facilitados pela própria máquina que utiliza; e muitos destes procedimentos são retilíneos, facilmente percetíveis e acessíveis para a grande maioria das pessoas, uma vez que a rede, tal como nós, também aprendeu a utilizar muitas das nossas estratégias de sedução para captar a nossa atenção. Nesse processo, ela multiplica ou enfatiza cada novo facto em novos conjuntos de factos numa lógica em que o mais importante é atrair o nosso olhar. Para que tal aconteça, a matriz usa, inventa e prepara imagens que nos capturam, criando a partir delas novos focos de interesse. Cada novo “acontecimento” digital gera sucessivos acontecimentos similares; ou, dito de outra forma, cada coisa se transforma numa fonte interminável de casos que, em muitos aspetos, ultrapassam o que conseguimos fazer e que todos nós aceitamos como normais. Quando estas coisas acontecem nos domínios onde nos encontramos, não nos sentimos às escuras, nem a nossa ignorância parece incomodar-nos.
Imaginem que estamos no cais de uma estação à espera de um comboio. A locomotiva passa por nós a alta velocidade e a rapidez com que se desloca não permite que entremos nela, uma vez que temos as nossas próprias limitações biológicas que nos impedem de acompanhar a sua velocidade. O mesmo acontece com as contradições do sistema internético, reprodutoras de disparidades, conflitos e dificuldades que nos impedem de acompanhá-lo quando confrontados com a sua velocidade, excessos, quantidade de processamentos por segundo e rapidez de operações, cujo impacto cria novos desfasamentos. Todos estes elementos favoreceram e facilitaram o funcionamento e expansão da internet, um pouco à custa da nossa capacidade de intervenção. É por isso que, quando observamos e percecionamos todas estas coisas, temos a impressão de que nos encontramos no interior de um processo um tanto ou quanto irracional e incontrolável que nos ultrapassa e exclui, onde tudo se desatualiza rapidamente de acordo com critérios que não são nossos. As soluções encontradas são rapidamente descartadas, tornadas obsoletas, reformuladas ou adaptadas para se tornarem mais eficazes, mais simples, mais interventivas, embora de curta duração. É nesta vertigem de mudanças que vamos vivendo e em que muitas vezes nos perdemos.
Compreender a música e o jazz passou sempre por compreender o nosso tempo; mas, quando entramos no tempo rápido da rede – numa vertigem que está exposta na quantidade de dados que processa, na velocidade de tratamento, nos biliões de operações por segundo – os nossos desencontros temporais com essa realidade podem tornar-se insolúveis, correndo nós o risco de experienciarmos um corte insanável entre o que somos e a aceleração das referências que compõem o nosso campo de intervenção exterior. Num contexto com estas características torna-se difícil não dizer que as coisas estão apressadas e que pensar lentamente se revela um obstáculo pois, entre várias coisas, ele não nos permite realizar redireccionamentos atempados. Sem uma moldura de referência cronológica, deixamos de ter tempo para aplicarmos a nossas conclusões e estabelecermos linhas de orientação de acordo com o que pensamos; e, neste sentido, é aconselhável alguma contenção nas nossas decisões e nas considerações que fazemos. Na rede tudo está inacabado e tudo se encontra em projeto; e muitas das coisas que nela existem arrastam consigo diferentes tipos de problemas que nos obrigam a encontrar soluções das quais resultam de novos e variados elementos conflituantes entre si.
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Hoje, grande parte da música e do jazz existe nos ecossistemas digitais alimentados através da fibra ótica e, neste sentido, a internet é um campo extremamente volúvel e interessante para percebermos como se movimentam e acontecem certos fenómenos musicais. A sua observação e análise permite-nos entender a forma como as diversas forças em presença influenciam os géneros musicais, e a conclusão a que chegamos é que o jazz evoluiu nestes tempos mais recentes como se fosse um fenómeno de informação, perspetivado como um caso contemporâneo simultaneamente musical e extramusical. Considerando esta circunstância, é legítimo perguntarmo-nos como é que o jazz drena as suas influências para dentro da sociedade atual; ou será que drena?; ou como é que as suas especificidades atingem as pessoas que o recebem nas suas especificações interiores e exteriores; ou será que o ouvinte atual funciona apenas por impulsos e retornos sem uma base crítica de intervenção? Associados à divulgação existem muitos outros fatores que nuns casos estão próximos desta música, noutros estão distantes; e nem todos eles contribuem para as mudanças ocorridas no jazz. Por vezes, os casos mais distantes e que nos parecem mais paralelos em relação ao jazz são os que melhor simbolizam as alterações de conjuntura; outras vezes, são os elementos menos visíveis os que adquirem maior importância nas mudanças. A rede está repleta de situações mais ou menos observáveis, específicas ou genéricas, que abrangem e influenciam o mundo musical; e, por seu turno, este mundo também influencia a rede. Se quiserem, podemos dizer a coisa ao contrário: ou seja, este movimento de influência é circular e mutuamente difundido, funcionando em diferentes direções – o que está a desaparecer aparece; e, inversamente, o que esta a aparecer desaparece.
O que decorre de todas estas deslocações de sentido é o efeito em cadeia da novidade; mas também há processos que funcionam no sentido oposto, como, por exemplo, casos mais afastados do jazz que se tornaram importantes por um conjunto de casualidades e oportunidades imprevistas. Hoje, é praticamente impossível perceber o grau de influência do jazz e da música nas sociedades atuais, uma vez que a comunicação e a informação que estruturam a matriz digital deformam muitas das nossas perceções. A rede usa o efeito surpresa para atrair o ouvinte e a novidade divide tudo; nós, os ouvintes, não conhecemos os seus meandros e os fatores mais importantes podem configurar situações exteriores ao jazz, que exercem sobre esta música e sobre nós influências e pressões de grande preponderância. Perante este estado de coisas, achamos que é importante conhecermos certas realidades que nos podem ajudar a melhorar a nossa capacidade de escuta e a perceber os melhores caminhos que percorremos. Em resumo, podemos dizer que temos de ter em consideração certos aspetos relacionados com a divulgação do jazz através de produtos sonoros musicais que circulam nas inúmeras plataformas de divulgação digital, espaços que são permanentemente alterados pelos avanços tecnológicos e que atualizam e otimizam mecanismos de sedução. Estas inovações tecnológicas estão constantemente a formar novos campos de intervenção, novas ferramentas de atratividade que ora se expandem, ora regridem, em dinâmicas que são cada vez mais incontroláveis e, paradoxalmente, cada vez mais eficientes.
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Há quem diga que ouvir é uma maneira de pensar caminhando, ou, se preferirem, uma forma de caminhar pensando. Nós gostamos da metáfora do viajante que vagueia no território da música e do jazz de uma maneira dinâmica, tal como também gostamos da ideia de pensar a música e o jazz como se fosse uma forma de andar no interior de um processo de reflexão simultaneamente individual e coletivo. No entanto, as coisas que temos vindo a dizer resultam de pausas que vamos fazendo neste percurso de descoberta, um tempo de descanso que aproveitamos para pensar sobre o trajeto imaginário de um ouvinte que também é um peregrino na imensidão do jazz. Tal como referimos acima, este género musical está atualmente localizado num campo musical em expansão, onde temos acesso a tudo e em que cada ouvinte circula com o seu próprio corpo e pelo seu próprio pé: um peregrino repleto de sensações, emoções, convicções e memórias, um corpo acompanhado de sentidos, conhecimentos e razão. Este ouvinte é como uma espécie de homem radar, alguém que capta tudo e absorve todos os sons do universo – um ser que sempre existiu e que certamente vai continuar a existir, apesar de não sabermos bem ao certo qual será o seu caminho futuro. Aprofundando esta metáfora, podemos dizer que o jazz, sendo um percurso no desconhecido, é pela sua própria natureza um fenómeno aleatório; mas este “fazer caminhando” do jazz entre várias músicas populares realiza-se atualmente no interior de uma realidade virtual mais complexa e ainda mais imprevisível. Se no passado este ouvinte tinha alguma autonomia relativamente ao caminho que se propunha realizar, hoje o seu percurso é cada vez mais orientado a partir de fora como se navegássemos através das indicações de um GPS. Neste sentido, podemos dizer que o percurso do jazz atual é uma espécie de mapa sonoro cada vez mais programado, definido e controlado, nuns casos com ligações programadas a atalhos que nos são vendidos e comercializados através de informações e comunicações por satélite, noutros com itinerários que são previamente estabelecidos pela poderosa máquina internética. Esta circunstância indica que talvez tenhamos perdido nesse processo alguma da nossa anterior liberdade, uma liberdade sugerida pela possibilidade de seguirmos os nossos próprios caminhos, fossem eles veredas, trilhos ou meros rastos. O importante era que fossem descobertos por nós.
Na contemporaneidade, todos nós caminhamos nas grandes autoestradas da informação e da comunicação; circulamos pela fibra ótica em ligações automáticas que nos são oferecidas, ligações que, apesar de pouco claras, tornando desnecessário um trabalho de conexão entre ouvinte e música, não incomodam quem as segue. Isto significa que fomos prescindindo de nos de esforçarmos em estabelecer inter-relações, inter-subjetivações e inter-correções entre o meio musical e o caminhante-ouvinte, o que faz com que muitos dos itinerários do jazz atual sejam o produto de uma atividade pré-fabricada, pensada e executada para um ouvinte mais ou menos fixo. A máquina internética expõe o utilizador a um número cada vez maior de rotas sonoras possíveis devidamente mapeadas, percursos turísticos já devidamente estudados e formatados, como viagens seguras a parques temáticos musicais, não oferecendo assim grandes alternativas de escolha ou deriva aos peregrinos. O próximo passo será, assim, o de reproduzir o mundo em imagens através de meta-realidades, com a música e o jazz a servirem de fundo sonoro; nesse mundo não precisamos de tomar decisões difíceis uma vez que podemos viver toda a vida à sombra das expectativas das máquinas, expectativas essas sugeridas pela inteligência artificial, sem conseguirmos embarcar nos nossos projetos, sem um caminho onde possamos explorar as nossas capacidades ou expressar nossa própria autenticidade.
Se um sistema usa a informação para explicar o mundo, esse mesmo sistema está a fechar a nossa capacidade de imaginarmos esse mesmo mundo; e se as imagens são produtos, o que mais prolifera nesse sistema, torna-se mais difícil ir além da realidade que nos é dada. Deste modo, a nossa imaginação, que deveria ser livre, encontra-se agora encerrada em procedimentos e protocolos de intervenção externos porque o que nos é transmitido por imagens delimita a nossa capacidade de realizarmos as nossas próprias ficções. As imagens são produtos acabados e, por mais que queiram explicar o mundo, não conseguem, porque o destino das imagens é quase sempre de curto alcance, pouco aprofundado, logo imediato e demasiado óbvio, sendo em muitos casos o mero reflexo rápido, superficial e instantâneo de uma realidade que se mostra de modo evidente. Hoje, curiosamente, vivemos num tempo contraditório, uma era de uma imaterialidade intensiva que, não sendo palpável, é determinada pelo que vemos. A perspetiva de que que podemos agir livremente num território onde impera a vigilância das imagens torna-se, assim, uma espécie de miragem num deserto de ideias; e temos dúvidas se a vigilância, além de pôr em causa o nosso conceito de liberdade, não nos tornará mais suscetíveis de sermos seduzidos pelo lado obscuro, dark, insondável, da rede. Colocarmo-nos de fora dos esquemas algorítmicos pode tornar-se, em teoria, um meio excelente de libertação, fomentando interpretações, refazendo leituras, determinando compreensões. No entanto, muitas destas atividades são pessoais, fundamentando e confirmando desse modo a importância do verdadeiro ato de escutar, e vice-versa. Quando voltamos à realidade onde vivemos, voltamos ao início das nossas questões; quando afirmarmos que ouvir implica correr riscos, somos forçados a perguntar-nos que riscos são estes – o que é que temos de enfrentar?; até que ponto não ter medo, não recear, não nos intimidarmos com o que nos é estranho, pode ajudar-nos a relativizar o fracasso e a incerteza do desconhecido? Cada pessoa é um caso; e, nesse caso, cada ouvinte é um elemento irrepetível na sua relação com a música e o jazz.
No entanto, quando ficamos sem rede as nossas construções colapsam – porque é da própria natureza da rede expandir-se sem limites. Quando esta não cresce, a própria máquina entra em colapso, arrastando-nos com ela, porque os limites são inconcebíveis, sendo impossível descartar facilmente todos os que se querem afastar dela. Quando se interrompe essa necessidade de expansão digital, quer estejamos numa ilha deserta ou numa selva urbana, as pessoas sentem dificuldades em perceber o que se está a passar à sua volta porque o mundo em que vivemos contém muitos outros mundos simultâneos, incluindo os imaginários: aqueles nos quais viajamos nos livros, num trajeto imóvel que percorre veredas de tinta impressa; ou em pixéis, no écran de computador ou telemóvel. No entanto, com a ajuda da nossa imaginação, facilmente percebemos que podemos acumular diversas fantasias acolhedoras num lugar imaterial que se tornou o refúgio interior dentro de uma redoma de acondicionamento exterior.
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