AUTOR: IVO MARTINS  CURADORIA: IVO MARTINS E PEDRO SILVA   COPRODUÇÃO: A OFICINA E GUIMARÃES PROJECT ROOM

EDIÇÃO: (Catálogo) Centro Cultural Vila Flor     DATA: Fevereiro - Junho de 2025 

 

 

 

 

 

“Se eu quiser falar com Deus”

Podemos dizer que a arte é uma tentativa sempre gorada de falar com Deus. Uma solução de diálogo sempre parcial, incompleta e discutível, que pretende explicar a passagem do vazio e da ausência à forma, ou seja, à criação. Hoje, no entanto, temos muitas dúvidas quanto à praticabilidade desta ideia.

 

 

Tenho que ficar a sós

Muitas vezes pensamos que estamos perante uma estratégia inventada para justificar a nossa solidão num mundo composto por uma realidade repleta de conflitos e de lutas entre pessoas. Talvez esta visão tenha a ver com a necessidade de encontrarmos saídas airosas por meio de explicações simplificadas que tentam detetar e atenuar as nossas diferenças.

 

 

“Tenho que apagar a luz”

Na narrativa breve de J. G. Ballard, “A Gioconda do Meio-Dia Crespucular”, o protagonista retira-se para uma casa isolada junto ao mar para recuperar de uma doença oftalmológica. A sua cegueira momentânea suscita uma penetração notavelmente acrescida dos restantes sentidos. E, do seu íntimo, brotam visões de sonho, que em breve começam a parecer-lhe mais reais do que a realidade e às quais se entrega com obsessão.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“Tenho que calar a voz”

Sentirmos o diálogo silencioso do pensamento – quem chegou a este tipo de diálogo alcançou um estádio ‘dois-em-um’ numa conversa que temos connosco. Pensar também é um solilóquio centrado num processo de compreensão: quando experienciamos o diálogo silencioso do pensamento, o ego divide-se em dois e depois, quando aparecemos no mundo, o ego recompõe-se numa única entidade. Nesse espaço de pensamento cada pessoa é capaz de se confrontar com as suas experiências e suas crenças, bem como com aquilo que pensa que sabe.

 

 

“Tenho que encontrar a paz”

A atividade de pensar, de conseguir compreender o mundo, tem o poder de desorganizar tudo aquilo em que possamos acreditar. Compreender nada tem a ver com a produção de ‘informação correta’ ou de ‘conhecimento científico’; é, pelo contrário, um processo complicado que nos permite, se bem-sucedidos nessa tarefa, alcançar um acordo e uma reconciliação com a realidade. Quanto assim fazemos, o mundo torna-se então uma casa.  

 

 

“Tenho que folgar os nós”

Resta-nos, portanto, pensar ou refletir pela nossa própria cabeça; perceber as causas da permanência dos nossos erros, muitas vezes associados a violência e ignorância. Mais frequentemente do que seria desejável, resumimos estes problemas por via de autojustificações baseadas em confrontos de geração ou de idade; porém, persistimos quase sempre em procurar soluções no lado mais fácil das coisas.

 

 

Dos sapatos, das gravatas

Dos desejos, dos receios”

Para esse efeito produzimos cada vez mais narrativas, muitas delas sem interesse, cujo conteúdo é frequentemente demasiado previsível ou aborrecido; e a ideia de que somos capazes de abranger, explicar, solucionar, reverter ou mudar todas as situações complexas que aparecem no nosso caminho é só mais um erro a acrescentar a tantos outros.

 

 

“Tenho que esquecer a data”

Ontem dividíamos a vida em décadas, hoje olhamos a realidade em períodos mais reduzidos de tempo - cinco anos, por exemplo; no futuro próximo talvez anualmente ou em semestres que se desfazem em segundos – e um dia amanhã falaremos em depois de amanhã. Vivemos, assim em espaços de análise cada vez mais comprimidos e reduzidos, superfícies mínimas de entendimento e sobrevivência, conscientes de que, a cada conjunto de dez anos, vão florescer de maneira quase espontânea novos séculos entre gerações. Ao contrário de que seria de esperar, no entanto, todos os aspetos nus da vida, com todas as diferenças em relação ao passado, parecem hoje menos evidentes, embora ainda assim relativamente fáceis de detetar.

 

 

“Tenho que perder a conta”

Quando olhamos para o passado percebemos que, em muitos casos, as experiências criativas exploradas por cada um de nós poderiam conferir-nos grandes vantagens: o indivíduo com mais anos terá vivido e experimentada o suficiente para construir uma melhor compreensão do mundo à sua volta. Esta afirmação pressupõe que o indivíduo em causa soube aproveitar as oportunidades de aprendizagem contidas nas situações por que passou. Sem essa pressuposição, somos obrigados a concluir que essa experiência não lhe confere qualquer benefício nem em relação e si mesmo, nem em relação aos demais; porque sem esforço, vontade e os erros a que essa vontade nos induz, é impossível elaborar visões mais alargadas e intensas.

 

 

“Tenho que ter as mãos vazias”

Vivemos processos idênticos, sem serem iguais; vivemos experiências distintas, sem serem completamente diferentes. Assim sendo, podemos dizer que as diferenças entre as nossas construções interiores são semelhantes porque estão situadas numa realidade que nos permitiu traçar mapas mentais coerentes, enquadrados por vivências que se foram congelando e cristalizando no tempo e transformadas em tradição.


Tal como Peter Sloterdijk refere no livro “Reflexos Primitivos”, aquilo que, a partir de 1789, se chama “liberdade” é a transcrição positiva de um estado de coisas negativo: que o indivíduo existe numa relação não inclusiva com os sistemas abrangentes.

 

 

“Ter a alma e o corpo nus”

E, no entanto, hoje vivemos o tempo da alta definição (High Definition), um tempo que, como diz Byung-Chul Han em “A Agonia de Eros”, não deixa nada de por definir: vemos tudo, percebemos tudo, captamos tudo, percecionamos tudo: A fantasia, pelo contrário, habita num espaço indefinido. A informação e a fantasia são forças opostas. Por isso, não há qualquer imaginação densa em informação que não esteja em condições de idealizar o outro. A construção do outro não depende de uma informação maior ou menor. É só a negatividade da subtração que o produz na sua alteridade atópica. Esta confere-lhe um nível mais elevado de ser para lá da idealização” ou da “sobrevalorização. A informação, sendo uma positividade, conduz à desintegração da negatividade do outro.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“Se eu quiser falar com Deus”

Sem a intervenção de um pensamento orientador tudo se perderá, e os significados desencadeadas pelas imagens andarão à deriva, acumulados num presente cada vez mais repleto de zonas cinzentas e formado por comportamentos erráticos e sem sentido – um presente que a cada momento se desvanece em novas áreas mais ou menos estranhas, ilegíveis ou estáticas, sempre ativadas por dinâmicas interativas incontroláveis. Um presente que se afirma na vertigem das nossas observações transformadas em lampejos de assimilações incompletas; um presente repleto de visões macroscópicas, passagens genéricas e ângulos fracionados de perspetivas conjuntas, onde as noções que adquirimos se tornaram indefinidas, numa deriva sem projeção de contrastes.

Mas sem contrastes não podemos detetar pormenores interessantes, nem fazemos explorações sobre as particularidades extremas em que passagens arriscadas nos fazem descobrir novas coisas. Assim sendo, damos por nós a viver num presente parcial que nos seus diversos aspetos representa défice de solidez, falta de conhecimento e carência de sensibilidade. Sem estes contrastes toda pintura perde tensão; porque, hoje, o que encontramos na arte são situações fraturadas, inconsistentes, impermanentes, arquivadas avulsamente numa rede que reúne tonalidades de imagens, indiferenciadas, diluídas, obscuras, sombrias ou puramente aleatórias, distribuídas por zonas repartidas em que não conseguimos reconhecer uma unidade ou coerência. Mas, mesmo quando conseguimos estabelecer sequências, as nossas linhas de orientação tornam-se então informes e formatadas, sem capacidade de direcionar o observador, nem de orientá-lo na sua sensibilidade.



“Tenho que aceitar a dor”

As pessoas encaram de modo diferente os seus conflitos pessoais porque umas vezes são egoístas e individualistas, noutras são solidárias e generosas. Tanto nuns casos como nos outros existe um confronto que coloca em evidência conflitos que podem assumir um caráter pessoal ou uma orientação coletiva. Muitos destes embates acabam por ter consequências no futuro, apesar do futuro ter má reputação nos tempos atuais – porque expor o passado é, na ótica de muitas pessoas, um sinal de fraqueza; uma incapacidade de resolver um presente cuja permanência gera que desfasamentos, disfunções e situações de potencial descontrolo.

 

 

“Tenho que comer o pão”

Ficamos, assim, dependentes de crenças que, não sendo verdadeiras, ajudam-nos a manter vivo um certo grau de equilíbrio e de harmonia nas nossas relações com um mundo habitado por pessoas que têm idades e experiências diferentes. Nesta ideia de conflito é percetível que sentimos divergências inevitavelmente discutíveis; porque todos sabemos que pessoas distintas e diferentes na sua personalidade, carácter, genética, experiência, cultura, e natureza, agem muitas vezes às escuras quanto às motivações dos outros.

Em “Nudez”, Giorgio Agamben refere que [só] pode dizer-se contemporâneo quem não se deixa cegar pelas luzes do século e consegue apreender nelas a parte da sombra, a sua obscuridade íntima. Mas com isto não respondemos ainda à nossa pergunta. Porque deveria interessar-nos conseguirmos perceber as trevas que provêm da época? Não será porventura o escuro uma experiência anónima e por definição impenetrável, qualquer coisa que não se dirige a nós e não pode, portanto, dizer-nos respeito? Pelo contrário, o contemporâneo é aquele que percebe o escuro do seu tempo como qualquer coisa que lhe diz respeito e não para de interpelar, qualquer coisa que, mais do que toda a luz, se endereça direta e singularmente a ele. É contemporâneo quem recebe em pleno o feixe da treva que provém do seu tempo

 

 

“Que o diabo amassou”

Hal Foster escreve, em MAUS, NOVOS, TEMPOS: arte, crítica, emergência”: Na década de 1990, verificou-se uma propensão geral para redefinir a experiência, individual e histórica, em termos de trauma: falava-se numa língua trauma nos domínios artístico e literário, no discurso académico e na cultura popular em simultâneo. Nessa época os principais romancistas (por exemplo, Paul Auster, Dennis Cooper, Steve Erickson, Denis Johnson, Ian McEwan) concebiam a experiência que não é experimentada, pelo menos não de forma pontual, que chega demasiado cedo ou demasiado tarde, que tem de ser interpretada compulsivamente (como na neurose) ou reconstruída após o facto (como na análise).

Infelizmente, o movimento retrospetivo de sentido, o qual poderia eventualmente ajudar-nos a definir algumas mudanças eficazes, raramente acontece; o que nos surge é, pelo contrário, sempre o mesmo homem, um produto do seu próprio tempo que ele, verdadeiramente, não controla. Este homem é alguém que nos vai surgindo em posições temporalmente abstratas que permanecem por resolver.

 

 

“Tenho que virar um cão

Tenho que lamber o chão”

Nós somos para alguns filósofos uma espécie de ferida viva e aberta que se abre no tempo, como se fosse um hiato incurável; algo que se manifesta numa fratura entre verdade e falsidade. E esta manifestação impele-nos para movimentos de autoconvencimento, por vezes exagerados, muitos deles interesseiros, grosseiros ou tendenciosos, que acontecem de modo contínuo e permanente.

 

 

“Dos palácios, dos castelos

Suntuosos do meu sonho”

Também podemos dizer que somos corte, fissura, fratura – fragmento numa extensa estrutura de tempo, uma brecha aberta e ininterrupta que não se resolve e faz com que muitos aspetos da vida fiquem em suspenso num limbo deslocalizado de um instante por revelar, entre passado, presente e futuro.

No texto “A Inspiração”, Maurice Blanchot tece a seguinte consideração: Em várias ocasiões Kafka disse a Gustav Janouch: Se não existissem essas medonhas noites de insónia, em geral, não escreveria. É preciso entendê-lo profundamente: a inspiração, essa fala errante que não pode ter fim, é a longa noite de insónia, e é para se defender, que o escritor chega a escrever verdadeiramente, atividade que o entrega ao mundo onde pode dormir. (...) A inspiração impele-nos suave ou impetuosamente para fora do mundo e, nesse fora, não há sono, tal como não há repouso. Talvez devamos chamar-lhe noite, mas precisamente a noite, a essência da noite, não nos deixa dormir. Nela não se encontra refúgio no sono. O sono é uma saída por onde procuramos escapar, não ao dia, mas à noite que é sem saída.

 

 

“Tenho que me ver tristonho

Tenho que me achar medonho”   

A melancolia é uma brecha aberta num desfasamento temporal que atrasa e desencadeia graves sensações vazio e impotência. Numa amálgama de uma grandiosidade juntam-se momentos de tudo, em que passado, presente e futuro formam blocos indistintos de dimensões temporais adversas, muitas delas confusas, que condicionam e colocam vários problemas para resolver. Apetece-nos dizer que não nos damos bem conta do tempo irregular que nos cerca, onde acabamos por viver e morrer a destempo.

 

 

“E apesar de um mal tamanho

Alegrar meu coração

Vivemos cada momento de modo acrítico em espaços temporais cada vez mais artificiais, indominados em presentes que se desatualizam ao segundo ao mesmo tempo que nos submete, situando-nos dessa maneira na tirania do instante. Cada sujeito vai sendo apanhado em diversos níveis de tempo: o meu tempo; o nosso tempo; o outro tempo, o tempo do outro; o tempo onde acabamos por viver, num presente ambivalente situado entre muitas outras camadas de diversas outras formas de presente.

Neste sentido, pensar no mal é manter um equilíbrio no caminhar difícil e sinuoso de degraus pouco visíveis, onde cada culpa é uma etapa que não consegue estabelecer relação com o espaço percorrido. Talvez o mundo que observamos seja plano, sem altura, largura ou comprimento – um mundo vazio apenas que engloba maneiras de ser diferentes.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“Se eu quiser falar com Deus”

Simone Weil escreve em “A Gravidade e a Graça”:

Deus não pode estar presente na criação senão sob a forma da ausência.

O mal e a inocência de Deus é uma distância infinita para a conceção inocente do mal: reciprocamente, o mal determina que é preciso colocar Deus a uma distância infinita.

Este mundo, enquanto absolutamente vazio de Deus, é o próprio Deus.

Por isso todo o consolo na felicidade nos afasta do amor e da verdade.

É aí que reside o mistério dos mistérios. Quando o tocamos estamos em segurança. (...)

Nada do que existe é absolutamente digno de amor.

Logo é preciso amar o que não existe.

Mas esse objeto de amor que não existe não é uma ficção.

Porque as nossas ficções não podem ser dignas de amor do que nós não somos.

 

 

“Tenho que me aventurar”

Gilles Deleuze nota o seguinte, a propósito da pintura Francis Bacon: O diagrama é sem dúvida um caos, uma catástrofe, mas também um germe de ordem ou de ritmo. É um caos violento em relação aos dados figurativos, mas é um germe de ritmo em relação à nova ordem da pintura: “abre domínios sensíveis”, como diz Bacon. O diagrama termina o trabalho preparatório do pintor e começa o ato de pintar. Não há pintor que não passe por essa experiência do caos-germe, em que de súbito nada vê e corre o risco de se afundar: colapso das coordenadas visuais.



“Tenho que subir aos céus

Sem cordas pra segurar”

 

Cada pessoa será um produto do seu tempo, e nessa dimensão produz-se um desenho intuitivo que também pode ser geracional. Contudo, esta possibilidade parece não ser relevante para resolvermos os problemas que temos de solucionar. Os desenhos são permanentemente apagados, refeitos e redesenhados, até ao ponto de se tornarem estéreis, inertes, inúteis, dispensáveis – porque tudo está em rápida mudança, uma mudança que, sendo a mesma para toda a gente, move-se a velocidades diferentes. E o mundo enquanto fonte segura de experiências deixou de o ser, por causa de acelerações intensivas, principalmente nos anos mais recentes. A cada velocidade parece detetar-se um trauma desencadeado por excessos de informação que exponenciaram a circulação de imagens e saturam os nossos pensamentos. Nestas circunstâncias, quanto mais pensamos maiores são as probabilidades de conflito, porque o verdadeiro pensamento é perigoso.             

 

 

“Tenho que dizer adeus”

Consequentemente, tendemos a ver as coisas através de perspetivas mais rápidas, aceleradas, vertiginosas e superficiais, e, por contraste, menos extensas, profundas ou intensas, menos capazes assim de se inscreverem nos horizontes do tempo. Os olhares já não dão uma sensação de diferença em relação ao mais antigo, provocando uma disfunção ilusória.

 

 

“Dar as costas, caminhar”

Quando nos afastamos de qualquer tipo de responsabilidade civilizacional, o caminho vem de fora ou de dentro. Neste percurso seremos confrontados com muitas surpresas: os indivíduos irão ser medidos e quantificados, e a sua data de nascimento terá pouco relevância; os nossos atos serão cada vez mais previstos e classificados, e cada momento das nossas vidas constituirá uma fonte importante de dados; a antiga ideia de conflito geracional  esfumar-se-á, tal como muitas outras ideias do passado; viveremos perante constantes redefinições de sentido produzidas por uma poderosa e omnipresente inteligência artificial, circunstância que nos tornará previsíveis e dependentes de novas máquinas inteligentes.

 

 

“Decidido, pela estrada

Que ao findar vai dar em nada”

Perante o avanço imparável das máquinas teremos, ainda, como referência o nosso corpo. Quando o observamos, quando vemos a maneira como ele se movimenta e reage às situações com que somos confrontados, até quando sentimos que compreendemos alguma coisa, torna-se percetível que ainda temos uma noção de corpo – um conjunto de elementos que conseguimos visualizar em sinais, vestígios, sintomas e sensações da nossa passagem pela vida. Possuímos um corpo compósito, um misto de animal e máquina composto de diversas aplicações e adaptações tecnológicas; um corpo como um campo de experimentação, cujas vivências produzem pequenos choques civilizacionais desencadeados em diversas realidades. As nossas tendências e predisposições passadas ainda interferem na sintomatologia do presente, embora muitos dos nossos impulsos e tensões se situem no futuro.


Hoje, apesar de todos os avanços tecnológicos e científicos, sempre que olhamos para o nosso corpo ele parece afastar-se de nós; razão pela qual entramos em modo de esquecimento sobre o que fomos no passado e somos no presente. A estranha sensação passagem e transição do tempo num contexto em que estamos cada vez mais rodeados de informação forma uma realidade que tem uma enorme influência sobre nós.


Como diz Harold Bloom na obra “Onde Está a Sabedoria”, “Não somos a medida de todas as coisas, mas [somos] iludidos por elas”.

 

 

“Nada, nada, nada, nada

Nada, nada, nada, nada

Nada, nada, nada, nada”

 

Face à tragédia de não percebermos o que acontece, parece que os nossos sentidos se viraram inevitavelmente para a frente, na procura de horizontes de fuga num desconhecido que precisamos com urgência de descobrir, de descobrir como se tudo terminasse logo ali, depois da derradeira descoberta. Porque a tragédia é sempre irreparável; e o corpo trágico dilata-se e coloca-se em posições de vanguarda, isto é, repara-se a si próprio para se reestabelecer e enfrentar conflitos que são causados de um mundo não-dominado. Neste processo agimos por intuição, por contato, sem sabermos bem quem somos ou com quem nos vamos confundir.

 

 

“Do que eu pensava encontrar”

Em jeito de conclusão, citemos Georges Didi-Huberman, em “Diante do Tempo”:

Faz algum sentido, hoje, sessenta anos depois de Benjamin, reintroduzir a questão, a hipótese, a suposição da aura?

Benjamin, como se sabe, fala do “declínio da aura” na era moderna: mas, para ele, declínio não significa, justamente, desaparecimento. Ou antes: um desvio para baixo, uma inclinação, uma volta, uma nova inflexão.

A esta questão, é preciso opor, desde logo, o facto de que a noção de aura é difusa em toda a obra de Benjamin; e que pô-la em prática responde a uma experiência trans-histórica e profundamente dialética; portanto, saber se a aura foi “liquidada” ou não revelada ser uma falsa questão por excelência.

É necessário, de seguida, precisar que se a aura, em Benjamin, designa uma qualidade antropológica originária da imagem, a origem, na sua obra, não designa em caso algum o que o estaria a montante das coisas do mesmo modo que a fonte está a montante do rio: a origem em Benjamin, designa, o que está a nascer do devir e do declínio; não a fonte, mas sim um turbilhão no rio do devir, [que] arrasta no seu ritmo a matéria daquilo que está a aparecer.    

 

 

 

 

 

 

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