Escrever sobre o corpo é como falar sobre um deserto, sentir uma terra ainda por terminar, sem localizações definitivas e sobre a qual podemos realizar as mais variadas auto-criações. Esse deserto é uma superfície em mutação, onde cada passo se apaga e, por isso mesmo, não é possível descobrir nele qualquer tipo de identidade.
Uma estratégia de abordagem ao nosso corpo, seria reduzi-lo à figura de um inimigo – uma armadilha biológica que nos mata. O inimigo serve, no sentido de Lacan, de point de capiton (ponto de acolchoamento)do nosso espaço ideológico, permitindo unificar a multidão de adversários reais com os quais interagimos nas nossas lutas. Assim, se queremos deixar inscritas sobre o corpo as nossas ideias – consequência tardia do confronto nascido da incapacidade de sermos em simultâneo observadores e observados – nada melhor do que aprender na análise da morte, aquilo que nos faz olhar para o corpo da mesma forma como se observam tropas de assalto.
Na guerra todos os lugares têm de ser conquistados, desde que possuam um valor estratégico capaz de fazer alcançar a vitória. Os conflitos armados não obrigam os soldados a questionar-se sobre o que vai acontecer, nem sobre se devem ser relacionadas as nossas acções com a impossibilidade de se estabelecerem definições sérias acerca do que é o bem ou o mal. Nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial, Ernst Jünger já havia celebrado o combate corpo a corpo, transformando-o num verdadeiro encontro intersubjectivo, um momento de autenticidade que residia num acto violentamente transgressor, tal como o real lacaniano – essa coisa que Antígona enfrenta quando decide transgredir as leis da cidade – ou como o excesso em Bataille.
O preço a pagar pela normalização uniformizadora da visão sobre o corpo implica uma evidente mudança na figura do nosso inimigo; já não se trata de enfrentar o império do mal, mas de aguentar o confronto numa configuração psicológica onde a lei reguladora das relações entre os estados não tem utilidade. Estamos em luta com o corpo, situado na proximidade de um desmoronamento total, como um mundo em crise por causas que nos são parcialmente alheias. Esta luta oprime e influencia todas as nossas acções. Buscamos processos de anulação sobre as emoções, para viabilizarmos os inúmeros conflitos físicos e mentais que a nos sujeitam e nos submetem. Ser capaz de agir negativamente contra a integridade de cada indivíduo, numa acção desintegradora sobre o seu corpo, afecta também o próprio autor que se destrói juntamente com todos os outros corpos. A violência fundamentalista tem o propósito de nos abrir os olhos, para nos curar da nossa insensibilidade ideológica e do nosso condicionamento consumista. Só intervenções violentas e directas podem realizar a função de nos acordar e de combater a angústia existencial do indivíduo cuja sensação de não existir é evidente.
A experiência do corpo é trágica e traumática por natureza. Quando se observa na sua versão pós-moderna, o corpo revela uma forma ainda mais desmaterializada. O espaço aberto e afastado do real surge como algo capaz de suportar todo o tipo de teatralização e de agressões, onde é possível reinventarmo-nos de um modo imaterial, em utilizações de objectos destinados a serem apenas visionados ou destruídos, procurando evitar o completo colapso psíquico dos sujeitos. Estes adereços procuram encontrar uma fórmula objectiva e efémera de atrair atenções. São produtos que se confundem com os corpos e fornecem, transitoriamente, uma ideia apaziguadora de perfeição. Através de sucessivas projecções numa cadeia de imagens audiovisuais, os corpos são transformados em encarnações utópicas, fac-similes para uma visão ideal de beleza e de bem-estar, associados de um modo subliminar à torrente da propaganda oficial. As actuações destrutivas sobre o corpo são vividas como provas de autenticidade e procuram pôr fim a um estado de dormência social.
Depois do heroísmo estético do séc. XX que reivindicava para si a capacidade de suportar toda a carga de solidão corajosa e absurda atribuída por cada pessoa ao seu próprio corpo, entramos num novo sentido do heróico encarnado no homem vulgar, visto como o comum dos mortais. Os heróis de outrora suportavam um destino universal e por isso eram poderosamente humanos. Agora aparecem-nos outros tipos de heroísmo, expostos naqueles que não dão ao corpo a prova última da sua autenticidade redentora, deixando de sofrer nele tudo o que fizeram. Atingimos um estádio de concessão, de afrouxamento radical em relação a essa concepção antiga. Perdemos a sobreposição do corpo como grande centro de uma solidão heróica, para o substituirmos por uma ideia de par – um corpo que se acompanha por outros corpos – o que na óptica de Peter Sloterdijk, acaba por constituir uma forma mais interessante e mais prática de se olhar para o nosso herói contemporâneo, deixando de ver nele a parte dos gloriosos feitos do velho dissidente solitário. Há, nesta nova visão do homem, uma dispersão, uma perda de unidade agora expressa na existência de um duplo ou de um sósia, um múltiplo retirado da sua figura original como se fosse outra imagem sua semelhante. No passado o corpo estava embrenhado reflexivamente na sua íntima destruição e era, por isso, uma totalidade solitária e sacrificial. O corpo do herói actual está circunscrito a um novo espaço bipolar, evidenciado na reflexão de um espelho sobreposto em imagens. Os homens reflectem espectros que se confundem com o seu par. Este novo ser ambivalente, clone e ambidestro, move-se de um modo oportunista por todo o tipo de cenário, realizando o seu trabalho de construção parasitária e usando indiscriminadamente todo o género de adereços e disfarces. As pessoas vivem um processo de união e de separação entre coisas, propiciando metamorfoses, alterações e correcções, acompanhadas por intervenções curativas e agressoras que já não exercem nenhum fascínio, como acontecia no passado. Os corpos continuam a ser, ainda hoje, superfícies de idealização, cada vez mais dessacralizados e desprotegidos, através dos quais podemos exprimir as nossas visões utilitárias e pragmáticas, afastadas do antigo conceito de heroicidade associado a um estado de profunda reflexão ética. O terrorismo fundamentalista encarna todas estas mudanças, como forma modificada da velha luta pela sobrevivência, com base em imagens antigas recicladas, modelos transformados e mais recentes de um culto de heroicidade, simultaneamente acto e desaparecimento, tornando-se difícil apagá-lo das nossas memórias.
Os antigos heróis eram reconhecidos na grandeza dos trabalhos que realizavam. Eram figuras capazes de fazer coisas sobre-humanas, o que os tornava seres ímpares e universais, homens possuidores de um conteúdo atractivo e comovedor, particularmente grandioso. Recorda-se agora com tristeza e saúde os que se lançavam contra os moinhos de vento, com o seu corpo contraído, fugidio e inseguro, como se fossem um produto belo e silencioso do declínio do homem ocidental. Eram figuras expostas e humildes onde o pensamento se ampliava e simultaneamente mutilava-se enquanto as nossas acções se sucediam e se estimulavam, limitando-nos.
Hoje fala-se de uma boa disciplina corporal, como se este conceito estivesse encarnado no treino colectivo, no jogging e no culturismo. Todas estas actividades participam no mito New Age do novo herói, dominadaspela economia subjectiva e prisioneira da realização das suas próprias potencialidades. Não é de surpreender esta obsessão por um certo tipo de corpo indissociável da passagem e adesão a sentimentos radicais; faz parte de uma parcela de indivíduos orientados para as ideologias de esquerda. A nova fase a que se chama «idade da maturidade» na política pragmática pós-moderna, realiza-se através de uma recentragem sobre o tratamento e o reajustamento dos critérios estéticos do corpo de cada um, numa reorientação das energias do desejo de e alteração do meio onde existimos.
Actualmente o corpo amontoa-se numa imensa pilha de material biológico descoberta desde o princípio do século XX. Podemos apelidar estes conglomerados biológicos de “corpos sem órgãos”, novas superfícies humanas redimensionadas em tamanho real, como se fossem pequenos paraísos existenciais no deserto de uma normalidade terrena. A genética introduziu renovados complexos corpóreos, assemelhando-os a velhos hangares de acumulação de materiais, cofres-fortes dos grandes patrimónios hereditários de uma humanidade necessitada, que precisa de ser protegida de todas as actividades destrutivas levadas a efeito pelas sociedades produtivas.
A arte assume também aqui um curioso papel, transformando os corpos em locais de aplicação e de exposição de adereços inventados pelo homem. O corpo sujeita-se a sucessivas alterações, realizadas a partir de um objecto sexual, dominado pela actuação criativa e comercial, que nos faz penetrar num novo território, onde poderemos reinvestir as nossas energias. Somos pequenos accionistas de um grande mercado organizado de acordo com a necessidade de se atingir a maximização das vantagens sobre todos os nossos desejos, de forma a alcançarmos um limite próximo de um estado final e definitivo de felicidade. A história teria parado no momento em que nos tivéssemos encontrado na posse de demasiados objectos sobre a perfeição corporal. A marca derradeira desse momento último, no qual o homem reencontraria o paraíso, é uma ideia publicitária, que se move discretamente por todos os lugares do mundo.
Os corpos estão em confronto uns com os outros nos territórios que excedem a sua capacidade populacional. Onde se acumulam pessoas e cresce a concorrência entre elas. As superfícies urbanas saturadas movem-se em locais que adquirem uma manifesta tendência competitiva e agressora, assumindo o ritmo avassalador de uma luta e de um confronto selectivo, por meio do qual as inúmeras coreografias humanas mostram corpos vitoriosos de forma ostensiva e provocatória. As suas linguagens e poses contrastam com a banalidade das nossas ocupações e com as práticas mais entediantes do nosso dia-a-dia. A matéria corpórea torna-se algo de extremamente corruptível e imperfeito. Só uma apurada técnica de manipulação visual consegue anular essa evidência. Desviado constantemente do grande acontecimento da sua morte, o corpo moderno, é um produtor/soldado, segundo Zygmunt Bauman, enquadrado disciplinarmente por forças de violência ambiental, manipulado e posto em movimento regular, como sucedia na linha de montagem “taylorista”. Este corpo aparece-nos agora no meio de um quadro de dispositivos engenhosamente elaborados, industrialmente concebidos, cientificamente dispostos, cuja contribuição exige dele a capacidade de reunir a força interior necessária para responder com prontidão aos estímulos solicitados, fazendo-o com o devido vigor. Esta capacidade de agir chama-se «saúde» e a denominação «doença» designa simetricamente a incapacidade de se dar essa resposta.
Todo o consumo tido por necessário visa assegurar a manutenção da saúde assim concebida. A alimentação cuidada prescreve a ingestão de todos os produtos necessários, em quantidades precisas, de maneira a fornecerem uma energia muscular suficiente para se cumprirem as exigências da fábrica e do serviço militar. O que excede esses valores numericamente estabelecidos em tabelas dietéticas e em protocolos científicos oficialmente aprovados é considerado um luxo e um sinal de relaxamento, no caso de ser consumido, ou de prudência, no caso de ser poupado ou reinvestido. O corpo passa agora a ser um lugar cumulativo para vários tipos de gestão, constantemente actualizada. Medir as sensações absorvidas, digerir as suas experiências, testar a sua capacidade de ser estimulado, torna-o um instrumento sensível de prazer ou de sofrimento. Sujeito a uma exploração produtiva e pronto a ser rentabilizado como máquina, o corpo está a ser transformado num subproduto social que deverá saber dar resposta às inúmeras requisições da globalização da produção e da guerra. A chamada forma tem equivalência no corpo, o qual passou a caminhar inversamente em relação à sua natureza; «a quebra de forma» significará inércia, apatia, falta de energia, abatimento, uma resposta desatenta aos estímulos – uma capacidade e/ou um interesse, decrescente ou simplesmente «abaixo da média», referida pelas novas sensações e pelas novas experiências impostas por uma lógica de mercado.
Neste momento percebemos como o corpo está a ser sistematicamente desviado e alterado por novas estruturações significantes, levadas a efeito através de organizações contemporâneas de trabalho e lazer, surgindo inserido em estranhas formas de organização económica, social e política. O homem submeteu-se a medições e quantificações intensivas, afectado por confusos conceitos de doença e de saúde, replicados sobre um indivíduo cada vez mais ambivalente nas suas representações. Ao afastar-se da sua natureza primeva, o homem transformou o mundo num escaparate de modelos humanos onde só se admitem corpos progressivamente alterados. Este desfasamento relativo à natureza admite a possibilidade de se encontrarem todo o tipo de mutilados e seres corrigidos, gente física e psicologicamente (in)capacitada, pessoas recicladas e adulteradas que representam arquetípicos das inúmeras personagens e avatares eleitos pelas imensas maiorias. O desvio daqui resultante, propícia a intervenção de entidades superintendentes das nossas actividades de cura e de remodelação, desenvolvendo complexas estruturas de organização sanitária e securitária, que recorre a panóplias de instrumentação transformadora para multiplicar os elementos de controlo em abordagens futuras. A humanidade passou a desregular-se sobre o seu próprio espaço corporal e o corpo está sempre a ser reconstruído em novos modelos pós-históricos. Há uma atitude irracional de aceitabilidade sobre tudo isto. Ao começamos a existir como algo para além do nosso horizonte de entendimento e onde não nos identificamos com homens capazes de nos fornecerem referências, o corpo passará a ser um lugar onde não nos é permitido viver. Ao manifestarmos uma ideia de perfeição exposta na ampliação e no alargamento dos numerosos processos de cura, deparamo-nos com uma situação que não se detecta nos animais. Ao aceitarmos todas as nossas aplicações e prefigurações curativas, acumuladas nos processos de mudança, mantemos, pura e simplesmente, o corpo em forma. Permanecer neste estado de acordo significa mantê-lo disponível para absorver e reagir a todos os estímulos endereçados pelo mercado, numa conjuntura onde não há um interior ou um exterior posicionado sobre um conceito de humanidade. O detentor de um corpo em guerra com o meio e consigo próprio, faz com que surja um indivíduo em permanente recuperação e permanentemente infiltrado por uma imagem de corpo sem limites fixos nem contornos nítidos, alojando-se nele um assustador limbo biológico, ultrapassado sucessivamente como modo de existência.
Se habitamos o corpo, habituamo-nos; se migramos, desabituamo-nos; se desenvolvemos uma conexão entre homem e mundo, isso revelará inúmeras situações difíceis de solucionar. Já não nos basta sermos aqueles que desconhecem o seu lugar, o seu próprio rosto e o seu próprio corpo. Agora sabemos também que os nossos corpos vão continuar a ser necessários para reiterar todas as formas de poder político, na adopção de um sistema de dominação, organizado num mundo supervisionado.
Quando o corpo passou a ser redimensionado numa entidade solitária, secular e individual, o seu detentor transformou-se num espaço aberto para as acções sociais do mercado, da política e da religião. O corpo encontra-se sujeito a inúmeras actividades expandidas por entre outras coisas mais ou menos mundanas, em novas formas de marketing e em convites de adesão a novas aparências. Neste contexto, a saúde tem um importante papel, considerada como actividade fundamental no meio social onde vivemos. O Estado moderno tem incrementado um subproduto higienista de corpo, um organismo sem doença, uma reconstrução a partir da metáfora do bem-estar, agora renegociada constantemente. Esse bem-estar parece justificar todas as manobras de corrupção – actos que se assumem de uma forma impoluta sobre o negócio do nosso corpo. Tudo surge no seguimento dos novos avanços tecnológicos e na capacidade de nos alienarmos e de perdermos a nossa consciência. Todos querem encontrar um lugar seguro ilusório, para aí se aliviarem do seu medo, reduzido a uma mera questão de mercado. Tudo parece ser permitido desde que continuemos prisioneiros dos compromissos de consumidor e não actuemos de forma crítica sobre as nossas obrigações e deveres. O desenvolvimento da distância de todos os problemas resultantes das imposições morais que cada acção autoriza, afasta o corpo das organizações pós-modernas, das acções pessoalmente desempenhadas. As pessoas actuam através de uma forma intermédia, na qual cada actor passou a estar incluído naquilo a que Stanley Milgran chamou de “estado de execução”.
Já não se pode criar o mais pequeno sentimento de autoria em relação aos resultados finais dos nossos actos porque vivemos num contexto organizacional globalizado onde cada autor é o executante de uma ordem e o emissor de uma outra. Esta realidade facilita a desmoralização do corpo, representado através de uma imensa cadeia de agentes, na qual é impossível detectar um único responsável. O peso da máquina burocrática não permite a ninguém ser inequivocamente indicado como elo suficiente e decisivo na concepção, nas consequências e na produção dos seus actos. Tal como em Medeia, a imagem do corpo desintegra-se e, simultaneamente, a sociedade vai destruindo-se numa rede imensa de seres anónimos. Os esquizofrénicos sofrem da desintegração do seu eu, relacionado com a deterioração da percepção das suas formas. Nas organizações actuais os corpos desintegram-se num estado de falta de percepção colectiva, provocado pela distância entre os indivíduos e pela ausência de identificação individual, quando situados na imensa rede de contactos que lhes é imposta. O corpo vai passando a estar acompanhado por um alargado regime de impunidade, uma dispensa sumaríssima, uma espécie de degredo, no qual sentimos estar isolados e desobrigados de qualquer tipo de avaliação sobre as consequências dos nossos actos. Estamos sujeitos a uma imposição técnico-profissional, admitindo-se todo o género de intervenção hierárquica e dominadora. A fragmentação dos actores reproduz a fragmentação dos seus corpos. Analisadas e divididas em estatísticas, fraccionadas e fracturadas por tipologias e alinhadas e separadas por qualidades e números, impedem-se as pessoas de serem consideradas completas, portadoras de um sentido moral único e individual. O corpo está abandonado às tarefas de uma sobrevivência colectivizada e impotente, prefigurado no meio da fragmentação do mundo à sua volta e de uma relação de apropriação a partir dos objectos, entre os quais ele é apenas uma parte. A porção aniquilada de cada corpo, vai sendo obrigada a participar nas sucessivas divisões do espaço, em partilhas verticais e horizontais executadas num complexo conjunto de operações económicas, políticas e sociais. A superfície corporal representa uma estratificação multifuncional e especializada da divisão sucessiva de muitas actividades, tal como o imenso terreno exterior do mercado onde está inserido. “A modernidade não tornou as pessoas mais cruéis; inventou simplesmente uma maneira de as coisas cruéis poderem passar a ser feitas por pessoas não cruéis”.
O novo modelo de conhecimento especialista facilitou o avanço grandioso da propaganda científica e o esplendor das manifestações visuais, concentradas agora no espectáculo maravilhoso do funcionamento das novas tecnologias. Verifica-se uma substituição na eliminação do conceito racista pós-colonial, dando lugar a uma abstracção classificatória, assente sobre vários valores genéticos e étnicos, na continuação da alegoria exploratória das velhas ideias eugénicas, através das quais pensávamos ser possível encontrar soluções científicas finais, capazes de resolverem os problemas das sociedades humanas.
Podemos entrar assim, numa espécie de “holocausto silencioso e continuo” onde abundarão soluções parciais e sub-reptícias, entrelaçadas num infindável processo de massificação, que desresponsabiliza e aliena as populações.
Quando olhado pela volatilidade das suas emanações visuais, numa combinação de música, movimento, escultura e músculos, o corpo parece ainda capaz de se defender de todos os ataques aniquiladores. Precisamos de aprender a resistir contra todos estes movimentos agressores que o desejam explorar e submeter na direcção lucrativa do mercado, como já havia sido feito de um modo aterrador com a enorme devastação da natureza levada a efeito no século XX. A resistência pode ser encarada como um ballet desafiador das ideologias da gravidade, uma maneira diferente de alterar as funções naturais do corpo humano, agindo de forma criativa sobre ele. Não se afasta o corpo da ideia de lucro para o salvar da vulgaridade dos usos e dos destinos a que nos submetemos. Como no bailado, no qual os grandes bailarinos são aclamados pela capacidade de pairar no ponto mais elevado dos seus saltos, cujo corpo parece quebrar por instantes todas as regras, temos de aprender a movimentarmo-nos de forma livre sobre a nossa ligação à terra, libertando-nos da acção da sua gravidade. As bailarinas deformam os pés e o corpo para conseguirem suster-se inumanamente nas pontas, reduzindo ao mínimo absoluto o seu contacto com a terra. Sendo uma ascensão do corpo, o ballet é também um cerimonial hierático, uma manifestação ritual de desdém pelo mundo vulgar e material que nos submete, sendo estas coisas a fonte da sua autoridade estética e do seu encanto humanístico.
O corpo passou a ser um artefacto multimédia consumado, uma peça de estilo e superfície, misturado com tecnologia nas suas origens ecléticas. Vivemos uma existência cada vez mais desenraizada, sob a performance cinética e audiovisual digna dos grandiosos espectáculos musicais e das mega produções de Hollywood. Temos um longo historial de destruição e de manipulação ideológica justificado pelas maiores atrocidades e os mais incríveis ataques à integridade dos corpos. Com este passado tão duvidoso temos de estar muito cépticos sobre todas as imagens apresentadas actualmente, as quais não pretendem outra coisa senão criar uma ilusão de saúde e de bem-estar. Os corpos são neste sentido, espaços sociais culturalmente elaborados e extremamente concorrenciais, ávidos de vitórias e de ganhos, nos quais podemos observar sinais complexos sobre as fantasias humanas e as nossas tendências transgressoras. O corpo do homem é um enredo mortal, uma imaginação cercada por desejos, como um pássaro filado pela serpente, incapaz de voar. O homem está acorrentado pelo sexo e pela natureza, encalhado em formas de libertação que foram – como sempre – definidas em conformidade com os direitos dos mais altamente colocados e dos mais poderosos. Faz parte dessa liberdade assim entendida, o direito de decidir monologicamente sobre o que é «o melhor interesse» do outro e, evidentemente, quais os interesses a sacrificar nas aras do bem-estar comum e da razão imparcial. Uma tal apetência para sermos parciais e aceitarmos essa parcialidade como um mal necessário, faz de nós seres reduzidos a um estado de impotência, presos a uma atitude desumana, passiva e dependente. O facto de o corpo ser hoje tolerado na sua fealdade e deformidade, permitiu-nos dessacralizar a sua essência, projectando nele todos as formas de horror sobre a mutabilidade humana. A possibilidade de cura e a necessidade dessa cura nos ser artificialmente imposta, prepara-nos para aceitarmos no futuro todas as terapias, inseridas no sonho de uma sociedade materialmente perfeita, numa sociedade purificada pela superação das fraquezas humanas.
Na obsessão da cura fixa-se na intensa busca da beleza perdida, realizada através do olhar, uma forma apolínea de rectificar a vida do nosso corpo, nascido da pobre mãe/natureza. O belo no corpo é algo que se sente desta forma despojada, desejando alcançar-se uma fisicalidade desprovida de todo o tipo de fisiologia. Como não come, não bebe, nem se reproduz, o corpo transforma-se em algo de idealmente estético, representado na desesperada tentativa de apartar da nossa imaginação a decadência da sua morte. Ao ser tratado como objecto artístico, o corpo tende a tornar-se uma forma desprovida de significado humano, como acontecia na obra de Gogol, “O Nariz”, através do qual se redime a sua incapacidade delibertação.
Deste lugar que é o nosso corpo não há hipótese de fuga. Estamos num mundo moralmente sério, autoritário e reduzido a obediências biológicas cada vez mais científicas e mais artificiais. A brutalidade e a sordidez da doença abrem caminho para outras formas de intervenção sobre o corpo, ajudando a quebrar o velho tabu cristão da sua exposição. Ao reduzir-se os homens a meros corpos passageiros e pouco valiosos, instala-se uma visão simplista sobre as pessoas observadas exclusivamente na sua dimensão física, secular e privada. Os homens estão condenados a ter de gerir o seu medo neste conjunto difícil de situações. Posicionando-se numa relação entre o interior e o exterior, ficamos obrigados a passar os limites. Ultrapassamos estes momentos difíceis, aplicando mais ciência e mais especialização. Aumentam-se as habilidades ilusórias, pensando estar a ampliar indefinidamente os nossos horizontes. Este risco não tem sido muitas vezes bem calculado e os desastres ocorridos estão à vista. Há uma clara acumulação de erros e não devemos pensar em corrigir alguma coisa daqui para a frente. Deleuze diz que até os animais em fuga fazem certas conquistas e, ao procederem assim, são capazes de criar algum espaço, mesmo na fuga. Ao proceder desta forma o animal «apoia-se no seu meio íntimo como em muletas frágeis». Se o homem continuar a afastar-se do corpo e não for capaz de alterar os seus modos de vida, caminharemos para um espaço estranho e sem medida. Convém acrescentar o facto de existir uma maior pressão sobre as nossas condicionantes existenciais, provocadas pela degradação do meio ambiente e, neste caso o homem não vai ter a menor possibilidade de se apoiar na mais pequena coisa. A constatação de que o homem da nossa época deixou de albergar uma confiança cósmica originária, reflecte o sinal mais distintivo da modernidade, tanto no que se refere ao lado bom quanto ao mau das nossas vidas. As pessoas continuam, no retiro da vivência privada, a adoptar fórmulas de autenticidade particular, propaladas por uma nova indústria cultural. Contra este tipo de concepção temos sair do esquema de mercantilização intensiva e da alienação generalizada que nos persegue, inventando uma nova maneira de viver. Quando procuramos preservar a esfera íntima e autenticidade da nossa vida, contra as investidas das trocas públicas alienadas, é a própria vida privada que se torna também uma esfera totalmente instrumentalizada, objectivada e mercantalizada.
O universo é algo muito diferente de um contentor. Nunca poderemos considerá-lo espaço habitável, pelo menos nos próximos mil anos. Esse espaço infinito será para nós o inferno vazio, o inferno gélido, escaldante e limitado. Somos permanentemente confrontados com esse elemento hostil à vida transformado na quintessência do terror e da inospitalidade. O terceiro milénio, se ainda existirmos, vai ser uma época atmosférica e da técnica dos contentores integrais. A estação espacial será a metáfora-chave da arquitectura social da era do porvir. Até lá teremos de viver neste desterro terrestre – uma prisão que transforma o homem num libertino de si próprio e reduz o seu corpo/personagem a um indivíduo excêntrico, no condutor do seu corpo, numa estrutura cada vez mais desregulada pela incapacidade de sair do planeta. Quando não podemos existir fora de um sistema no qual se está inserido, somos todos cúmplices e dedicados construtores de uma soberba pulverização das formas de identidade, na procura desenfreada de paz, na busca de uma vitória definitiva sobre as nossas imaginações. O pensamento foi afastado pelo aviltante, repulsivo e insignificante modo de vida das sociedades enclausuradas. A crescente violência irracional das nossas sociedades deve ser concebida como algo estritamente correlativo à despolitização e à acumulação intensiva de objectos das nossas comunidades. O corpo é neste contexto, um espaço sujeito a políticas de destruição e de contingência, indefinido nos seus contornos mais formais. Rasgar, arranhar, arrancar, mutilar, cortar, retalhar, queimar, derreter, são processos que reduzem o corpo à sua matéria-prima primordial, atirando-o de novo para as profundezas da sua natureza.
O corpo continuará a ser explorado como espaço de oportunidades, situação indicativa do reconhecimento explícito da primazia da economia sobre a democracia. A ideia de uma democracia honesta é uma ilusão. A ordem política democrática revelou a sua susceptível natureza de ser corrompida. A escolha tem de ser clara: ou aceitamos essa realidade dentro de um espírito compreensivo, assente numa sabedoria resignada e realista, ou reunimos coragem e reformulamos uma alternativa capaz de nos libertar desse peso. Enquanto permanecermos neste estado de ilusão, o corpo será uma totalidade anti-social, desconsiderado e brutalmente sujeito a todas as formas limite de dispêndio de energia. O volume corpóreo planetário e globalizado poderá ser objecto de uma política de deslocação em massa e de uma economia estruturada por práticas exploradoras e especulativas de uma avidez derradeira – um processo produtivo fatal para o próprio homem. A globalização actual é uma consequência desse movimento voraz do capital especulativo que, sob a forma de notícias, gira à volta da Terra, à velocidade da luz. A destruição do espaço e as novas conotações ameaçadoras daqui surgidas, fazem da globalização um momento de absoluta imposição do tempo, sem a mais pequena resistência do espaço que foi sendo progressivamente retirado e destruído, seguindo uma lógica determinada pela necessidade de se ganhar dinheiro rápido, através da rápida circulação de informação.
A questão será saber se seremos capazes de deixar em paz os nossos corpos e de utilizar um modelo radicalmente diferente de desenvolvimento – uma nova realidade humanista, baseada noutros pressupostos que não sejam consequência directa dos avanços tecnológicos na genética, elaborados sobre a organização da matéria viva – construindo-se mundos imprevistos longe da imitação da natureza. Se não sairmos deste processo de estranhamento e de alienação, continuaremos a ser reconduzidos por uma imobilidade e uma mudez, preocupantes.Todos os oradores fascinantes sabem prender literalmente a sua audiência, capturando a sua atenção, arrebatando-a e cativando-a, enquanto ninguém se move ou cochicha com o vizinho. Existe um grande silêncio e esta imobilidade generalizada é de tal ordem que se pode ouvir uma mosca, e o som da sua própria morte. As metáforas do sexo e do poder abundam nessas performances políticas e artísticas. No momento em que o orador domina o contacto visual com todos os outros olhos fixados sobre ele e os submete, à rebeldia do corpo e da mente dos ouvintes, aparece um único ponto focal localizado no centro da nossa atenção, regida por um silêncio avassalador, igual ao da própria morte – momento cortado pelo espírito e pelo corpo da pessoa que escutamos. Se não conseguirmos ultrapassar a fase narcisista e egoísta das sociedades pós-modernas, o homem vai continuar a interessar-se única e exclusivamente pelo outro homem e neste sentido, a tecnologia continuará a desenvolver-se num modelo cuja principal finalidade será a incrementação desse estranho estado de imobilidade, de silêncio e de mudez onde nos vamos afundando. Minorando-se os dispêndios do nosso corpo, gastos nas tarefas dos excessos necessários à nossa sobrevivência e dos quais os homens nunca foram capazes de se afastarem, vamos continuar a reflectir as tendências dominadoras sobre o nosso igual, levando-nos inevitavelmente para o abismo. Nas sociedades mais avançadas as pessoas começam a ter consciência e querem recusar o estado predatório onde vivem, optando e apontando saídas mais contemplativas sobre esta falta de domínio e de controlo que as atinge mortalmente. Não somos os donos de nada e o nosso corpo do qual paradoxalmente se torna impossível escapar, adquire o peso da estrutura colectiva, social, política e económica, impedindo uma contemplação propiciadora de novas descobertas. Só o pensamento, através de um trabalho desinteressado, consegue, por meio de uma prática constante de despojamento, atingir o nosso corpo, propiciando o seu abandono pelo género, uma vez que aquilo que se define como género se encontra neutralizado e transcendido. A partir desse estado de libertação poderemos recomeçar a representar alguma coisa diferente do que sabemos sobre nós.
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